quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Verbal

VEJO
PENSO
SINTO
FALO
ESCREVO...
ESCREVO...
MINTO.
Hangner Correia

domingo, 15 de novembro de 2009

O ANTI-HEROÍSMO BRASILEIRO NOS “CONTOS NEGREIROS” DE MARCELINO FREIRE.

É incontestável que por ter como matéria-prima a linguagem, a Literatura pode ser considerada uma arte que engloba todos os ramos científicos, desde a Filosofia às conversas de botequim, da Grécia de Homero à Cidade de Deus de Paulo Lins, os escritores descarregam parágrafos, nos quais, na maioria das vezes se encontram um tipo de reflexão científica. Mas também é senso comum de que, dentre esses ramos científicos, o que mais anda de mãos dadas, porém, olhando para lados opostos com a Literatura é a História.
Uma das premissas que podem confirmar essa nossa afirmação é a de que o escritor, vez por outra, poderá lançar seu olhar crítico paro o passado ou para o futuro, mas sempre condicionado aos seus pés, e também olhos, fincados no presente.
O pensamento histórico tem contribuído para desmistificar, desmascarar e até mesmo transformar alguns elementos estéticos de um texto literário. O que antes era visto como uma forma popular de Literatura, em outra época, poderia ser considerada a mais alta expressão literária, cultuada pelas academias e pela classe dominante de uma sociedade. Dentre esses elementos estéticos que mudaram no decorrer da História está a figura do herói.
O herói surgiu como estética na Literatura, ligada a certo período histórico, primeiramente na Grécia, com Homero. Tanto na Ilíada, quanto na Odisséia, a figura heróica surgiu como efeito moralizante nas obras desse escritor. Porém, “esse efeito de “ensinar” condições morais aos cidadãos da pólis grega não foi por mera “inspiração” poética. A “democracia” grega necessitava guiar seus habitantes a uma visão integradora do social, então era preciso idealizar um ser social perfeito, desprovido de defeitos, e se os tivesse seriam pelo menos aceitáveis socialmente. E a Literatura contribuiu, primeiramente pela modalidade oral, para que esse efeito se concretizasse perfeitamente.
Para os gregos o herói é uma figura estereotipada que engloba em sua personalidade as características necessárias para a resolução de um problema de dimensões épicas. Além disso, os heróis eram vistos como semideuses, e ficariam na hierarquia mitológica grega em uma situação intermediária aos Deuses originais. Daí todo aquele efeito moralizante já mencionado nas obras de Homero.
. Essa ideologia de herói grego ficou arraigado no imaginário e na moralidade popular durante muito tempo. Os feitos heróicos de coragem e de superação inspiraram modelos e exemplos em diversos povos, através de situações de guerra ou de competição construindo, desse modo, novas figuras arquetípicas. Foi o caso de Joana d’Arc na França, que dominada pela Inglaterra se exigia naquela época um fato ou feito extraordinário para retomar um sentimento de liberdade perdido por aquele país.
Com o passar do tempo as condições extraliterárias, como as guerras mundiais, a ascensão do capitalismo e da burguesia, as revoluções,o enfraquecimento do positivismo,entre outras, facilitaram para que os ecritores percebessem que a figura do herói não mais serviria como ideal para a condição humana nas sociedades futuras.
James Joyce, escritor irlandês, pelo menos assumidamente, foi um dos primeiros escritores do século XX que arrancou a flecha do pé do calcanhar de Aquiles e cravou-lhe de vez no coração de Ulysses, apagando assim de vez o esteriótipo idealizado pelos gregos. Então, surge uma figura estética que entra em confronto com aquelas características heróicas gregas.
Com elementos que giram em torno da malandragem, personalidade que cria uma empatia com o leitor, e sempre com a ideia de atingir seus objetivos, seja por que meio for, surge o anti-heroísmo na Literatura. O anti-herói protagoniza atitudes referentes ás do heroi clássico, mas esse tipo não possui vocação heróica e realiza as façanhas por motivos egoístas, de vaidade ou de quaisquer gêneros que não sejam altruístas. Diferente do heroi, o anti-heroi não possui apenas uma característica peculiar. Além dos que buscam sastifazer seus próprios interesses, há também os que sofrem desapontamentos em suas vidas, mas que persistem até alcançar o ato heróico. Outra peculiaridade do anti-heroi também fica marcada por aqueles que não tem o condicionamento físico e/ou intelectual o suficiente para conseguir o ato heróico, mas não percebe tal fato ou se preocupa com isso, caracterizando uma espécie de pretensão absoluta.
As “Femme Fatales” que seduzem suas vítimas para alcançar seus objetivos, os justiceiros que usam a violência para fazer justiça, os mercenários que trabalham apenas por dinheiro são exemplos de anti-heroís e estão espalhados pela Literatura do século XX.
O anti-heroísmo não surgiu apenas para entra em conflito com a estética heróica grega, além de representar um período histórico determinado,as características anti-heróicas, segundo Manuel da Costa Pinto
A partir do século XIX, os ferozes e impetuosos heróis literários encontram nos anti-heróis seus principais opositores. Esses personagens mostram o caráter profundamente imoral ou amoral, nocivo e dogmático do herói. A crescente problematização da realidade humana indica que os heróis são cada vez mais suscetíveis às falhas e derrotas. Nesse ponto, entra o questionamento dos personagens anti-heróis: revelar a virilidade e a imoralidade dos heróis. (Pinto, 2004, p.34)
Com uma reflexão sobre a identidade e até certo ponto da idoneidade da figura heróica, a cultura contemporânea inicia uma modificação semântica da personagem anti-heróica: não servir apenas de oposição ao herói, e sim, mostrar suas fraquezas, e perceber que até figuras estereotipadas como os eles são suscetíveis a falhas, e a partir dessas afirmações deduzir que a intenção heróica está mais próximas de nós do que imaginávamos. Enfim, a personagem anti-heróica veio, na Literatura, nos mostrar que qualquer pessoa seja com a cultura ou identidade que for pode alcançar uma personalidade heróica, ou seja, hoje a Literatura contemporânea torna personagens aparentemente comuns em verdadeiros heróis.
No Brasil, como não deu tempo de construir heróis, essa característica anti-heróica de transformar pessoas comuns em estereótipos de heróis se tornou mais comum a partir da década de 1990. Escritores como Raimundo Carreiro, Paulo Lins, e cineastas como Fernando Meirelles e Lírio Ferreira transformaram nossas “mazelas” sociais em elementos estéticos anti-heróicos. Embora na virada do século esse olhar ainda continue, o que nos chama mais atenção atualmente é o olhar “transverso” que os escritores da contemporaneidade disparam para a sociedade brasileira. No que seria uma crítica social elementar, isto é, a parte oprimida é sempre relatada como sofrida, desfavorecida de bens, negligenciada por uma classe dominante que não se cansa de ter poder, os escritores atuais, descarregam uma crítica social em que o oprimido também é criticado, não da mesma forma que o opressor, e sim, com uma espécie de conformismo pela situação em que se encontra. E o escritor brasileiro está usando essa estética na maioria das produções literárias da contemporaneidade. As personagens contemporâneas são carregadas de um conformismo brasileiro, um anti-heroísmo brasileiro.
Um desses escritores contemporâneos que faz essa “crítica às avessas” à sociedade brasileira é Marcelino Freire. Segundo ele mesmo o livro “Contos Negreiros” é baseado em escritores como Castro Alves e Cruz e Sousa cuja crítica social em relação aos negros é evidente. Em contrapartida, Freire usa a linguagem das ruas como a linguagem swingada de Manuel Bandeira, só que com alguns bytes a mais.
Crítico social sem ser dedo-duro, o escritor pernambucano nos mostra que para ser herói não precisa ser forte, não precisa ser branco, não precisa ser, e sim é preciso ter, não importa o que seja, mas para vencer na vida o homem necessariamente tem que possuir o exótico, não na acepção da palavra hoje, mas na essência dela, ou seja, o que está por fora do olho, o que está por fora do outro, como acontece com o rapaz do conto “Esquece” que queria ter um rolex de ouro e um carro importado mesmo conseguindo isso por atos ilícitos, mas na visão dele, ou deles, atos moralmente aceitáveis por estar tirando de quem têm, portanto, as personagens de “Os contos Negreiros” não são anti-heróis clássicos, mas acima de tudo anti-heróis brasileiros.
Outra característica anti-heróica do livro é que as personagens, mesmo tendo nome, podem ser qualquer um de nós, com fraquezas, vícios, virtudes, amores, etc. Isso fica evidente quando Marcelino nomeia os seus contos de cantos. O campo semântico da palavra pode ser analisado de duas formas: como o livro é uma crítica social ao racismo e a pobreza, o escritor dá vozes aos protestos das personagens, que geralmente, permanecem caladas na superfície da sociedade, e a segunda possibilidade é que canto pode representar qualquer lugar, qualquer pessoa, qualquer canto, indiferente de classe social, aquilo que se canta no conto está diante de nossos olhos, mesmo que por baixo exista um véu de indiferença ou de fingimento.
Mesmo o próprio autor afirmando que é um livro sobre racismo, ele dá a voz para outros anti-heróis brasileiros falarem nos cantos, como os homossexuais, os pobres, e os índios. Uma visão importante e inovadora é que Marcelino analisa o olhar estrangeiro sobre as mulheres do Brasil, como é no caso dos cantos “Alemães vão à guerra”, no caso a guerra são os quadris das negras brasileiras, e no canto “Yamami”, no qual o narrador é um estrangeiro que para outros pontos turísticos do Brasil não tinha olhares de turista, mas para indiazinha que o guiava pela Amazônia com a ajuda do seu ventre, o estrangeiro era só elogio.
Dentre algumas características anti-heróicas brasileiras presentes em “Contos Negreiros” estão o conformismo com a situação em que a personagem se encontra e o embranquecimento do negro. Além de outros contos essas características anti-heróicas estão presentes em especial em três contos: “Totonha”, “Solar dos príncipes” e “Meu negro de estimação”.
Em “Totonha” o conformismo anti-heróico aparece quando a personagem principal, uma senhora sem nenhuma escolaridade, bate de frente com uma professora que insiste em lhe apresentar a importância da educação, e com uma simplicidade conformada rebate o desejo da mulher, que insistia em fazê-la ler e escrever. E com uma dose de Determinismo esse desejo de não querer se livrar da pobreza e da ignorância fica evidente logo no início do conto.
“Capim sabe ler? Escrever? Já viu cachorro letrado, científico? Já viu juízo de valor? Em quê? Não quero aprender, dispenso. Deixa pra gente que é moço. Gente com vontade de doutorar. De falar bonito. De salvar vida de pobre. O pobre só precisa ser pobre. (Freire, 2005.p.79)
Já em “Solar dos Príncipes” e “Meu negro de estimação” o que predomina é o embranquecimento do negro. No primeiro, cineastas da favela próxima ao prédio, munidos de câmeras, microfones e outros equipamentos de filmagem, tentam fazer um documentário sobre a vida da classe média. Entretanto, o que poderia ser fácil, pois o porteiro é um negro, se torna uma confusão devido ao equívoco do porteiro em pensar que os negros cineastas da favela iriam roubar o patrimônio dos brancos.
O que se pode deduzir nesse conto é uma dialética entre “iguais”, mas que por estar num status diferente dos meninos, o porteiro se julga superior aos cineastas. E o racismo se torna às avessas, um preconceito de negro com negro, além de permanecer estereótipos já disseminados na cultura brasileira, tais como: o negro é ladrão, anda armado, favelado é traficante e etc. Como por exemplo: “... Filmando? Ladrão é assim quando quer seqüestrar. Acompanha o dia-dia, costumes, a que horas a vítima sai pra trabalhar... e em outro trecho: “... Viemos gravar um longa-metragem. Metra o quê? Metralhadora, cano longo, granada, os negros armados até os dentes...
“Esse embranquecimento também aparece em “Meu negro de estimação” um homossexual “resgata” um negro da favela e o torna uma pessoa especial , morador de um bairro nobre da cidade de São Paulo.” O conto se traduz também uma espécie de coisificação do ser humano, pois o homem tem o outro como coisa, como objeto.
Enfim, Marcelino Freire em “Contos Negreiros” nos mostra que temos que perder o medo em pensar pelo avesso, diferente do convencional, porém o livro também nos deixa uma mensagem muito clara de que nossa indiferença com nós mesmo ainda continua, e parece que por bastante tempo ainda.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

O velho? O novo?

Silêncio. Mais uma vez esse companheiro incômodo de todas as horas o ajuda a progredir (regredir?) de um pensamento para o outro, mas sem paradas para cafezinhos. Barulho? Apenas o eterno dialogar cotidiano entre cães e galos rompe sua atenção fixa no telhado. Vez por outra ele ouve o friccionar dos dedos em sua barba, e o ziguezaguear de Kurt (o gato) por entre suas pernas (inertes). Ele era assim, disperso, tonto. Não conseguia terminar uma frase sem ninguém lhe dizer o final. Esse é seu mundo, só pensamento, Errado? Esses pensamentos ainda lhe dariam frutos.
Diferentes dos outros moleques de sua idade que apostavam quantas bocas beijam numa noite, indiferente de que sexo for, e procuram na internet o novo sucesso dos “Aventureiros do calypso”. Ele tinha um projeto simples. Simples? Ser homem. Já imaginava seu apartamento quitado em trinta anos, seu carro semi-novo de dez anos atrás, sua esposa e filhos alegres vendo chegar o fim do mês, para no final das contas, os esporros, as dores de cabeça e as desavenças profissionais serem distribuídas em garças, onças, carpas e araras sem sobrar nem um beija-flor pra ele. Futuro? Enfim, o senhor classe-média.
Amigos? Tinha, porém ficaria perfeito singularizando o início do parágrafo. Amigo? Isso, apenas um. No entanto, pra ele era o melhor, o perfeito. Morava com ele, todas as noites sentado da mesma forma todas as horas, o Idiota na mão cruzado entre os braços, bermuda sem camisa, chinelos ou pantufas?
Era igual a ele. Argumentava com as sobrancelhas, não precisavam explicar nada um pro outro, que se entendiam (Se entediam? ) Reflexo? Projeto? Silêncio.
O lugar não tinha um cheiro só, variava. Pra cada canto que se apontava o nariz sentíamos fragrâncias distintas. De um lado peixe cru, do outro ervas medicinais, castanhas do Pará mescladas com cerveja quente, sem contar o suor misturado dos nativos culturais famintos e dos gringos ingênuos conhecedores de coisa nenhuma, cheiro de mercado de São José.
Ao fundo, seis ou oito olhos sobrepostos, admirados, vendo ouvindo ele contar sua paixão: a leitura.
- Foi assim que me vi feliz, lendo. Mas não pensem que a felicidade tá ali naquele carrão lá fora, naquela menininha que vocês namoram ou no dinheiro, e sim, está na sua verdadeira vontade de se apaixonar por alguma coisa, e fazer dessa “coisa” sua vida, contribuir em algo. Está aí a essência de ser feliz.
- É moço, mas com dinheiro a gente pode ser infeliz em Paris, Nova Iorque...
- Oxe tio, e tu não é rico não. Tu é só feliz lendo é?
- Não, não. Respondeu ele depois de uma longa gargalhada. Mas eu tenho um imenso prazer em descobrir as coisas e descubro nos livros. O livro na verdade não serve pra nada... Fechado. Ele fechado só serve de enfeite nas estantes. Vou contar um segredo pra vocês: muitos professores da faculdade nem lêem aqueles livros todos é só pra “rebolar”. Continuando... Esbraveja ele em tom doutoral. O livro só tem vida quando você o abre e dá vida àquela história...
Vez por outra, ele fazia isso: sentava no meio de uma praça ou mercado e falava de Literatura com os moleques, muitos não entendiam nada, porém alguns até escreviam seus primeiros poemas, eles escreverem para ele já era o ápice. E dizia que só fazia isso pra distrair. Sentia-se feliz assim, distribuindo um pouco de paixão pros outros. Felicidade. Às vezes se perguntava em que beco da adolescência ainda não tinha descoberto isso, que pra ser feliz só basta uma coisa: fazer o que gosta.
Amigos? Muitos. Ficam maravilhados em vê-lo falar. Hoje em dia nem sombra daquele fantasma que via todos os dias na sua casa: Lento, silencioso, disforme pensativo, não se apercebeu que perdia tanto tempo. Pensando. Ver seus filhos brincando sob suas pernas (agitadas) era ver a contemplação da alegria personificada em anjos. E se cambaleasse um pensamento negativo, poderia olhar pro lado e ver sua esposa lá, parceira, amável. Irmã. Mas algo ainda o agoniava.
Não sabe bem porque, mas se viu caminhando pela praia. Era o único esforço físico que fazia vez por outra. Vendo um quebra-mar: sentava, pensava. E parece que seu projeto estava cada vez mais longe. Olhar cansado pro mar, sempre olhando pra frente (ou pra cima) nunca pra trás. Olhou pra trás, e o crepúsculo atitudinal aconteceu. Viu um velho/moço contemplando-o. Não conseguiu mais pensar em mais nada. Era ele. Eu?
Por que perdi tanto tempo? Não quero que aconteça isso com os outros. Tenho que falar com ele. Comigo?
Não sabe bem porque se viu caminhando pela praia. Sempre fazia isso pelas manhãs. Porém à tarde, nunca. Vendo um quebra-mar: nem parava. Parou. E percebia que realizou seu projeto. Olhar sereno pro mar. Sempre olhava pra frente... Então, o crepúsculo reflexivo aconteceu, viu um moço/velho contemplando-o. Não conseguiu dizer mais nada era eu. Ele?

Hangner Correia
15/09/2009.

sábado, 19 de setembro de 2009

“Um eterno não –ser” ?

Distraído, passando por entre canais de televisão, cheio de textos universitários no colo, cá estou eu numa sexta-feira à noite. Quase destruindo o “scroll” do controle remoto, eis que alguma coisa me chamou a atenção. Era uma propaganda de um canal de televisão que ninguém assiste, a não ser quando passa naquele canal que tem um número de azar na configuração. A propaganda terminava com uma frase que a principio nada instigaria, mas por fim terminou sendo pano-de-fundo para esse texto, a frase era a seguinte: “Não são as respostas que movem o mundo, e sim, as perguntas.
Eliminada a distração, fui ao meu caldeirão de interrogações e – assim como tem sido ultimamente- puxei logo para “minha sardinha literária” alguns desses moinhos de vento que movem a orbe. Uma dessas perguntas foi: De que se fala a Literatura contemporânea? Pergunta essa vista em um site de grande circulação na “net”. E a segunda, que pode se desconecta em duas, seria: A sociedade merece a arte que tem, ou a arte é que merece esta sociedade?
Steven Connor em seu livro “Cultura Pós-moderna” diz que o principal alvo filosófico da atualidade é a crítica. E continua afirmando que todos nós diante de alguma manifestação artística, esquecemos como foi nossa recepção ante esta arte e na sequência engatilhamos nossas armas, e descarregamos nossas visões estéticas, sociológicas, políticas e até antropológicas, nessa prosa ou poema, ou seja, atualmente a crítica está acima de nossa percepção estética.
Muitos críticos da atualidade descarregam seu arsenal na cultura contemporânea dizendo que é uma arte artificial, sem regras, desvinculado da forma e que na verdade essa arte não tem a expressividade que possuía em outras épocas. Para a crítica a cultura contemporânea é um eterno não–ser . Ora, compartilho da opinião que a arte é reflexo da sociedade que a possui, é incontestável que a história tem provado isto. Peça a Zola para fazer um livro cujo conflito entre Homem e o Divino seja pano-de-fundo, no mínimo, ele soltaria os verdes vermezinhos que ele tinha no laboratório/escritório do Positivismo dessecando teu braço até sua morte. Sugira a Homero que troque seu herói Ulisses pelo anti-quase-herói Macunaíma, e daí analise como ficaria a sociedade grega. Não podemos exigir forma em uma sociedade totalmente disforme como a nossa, na qual, idosos tiram fotos de crianças recém-nascidas seminuas e espalham pela internet, sem nenhum propósito angelical, onde as estruturas familiares estão desconjuntadas/mudadas, nas quais, a mãe é que é a provedora da família (e às vezes os filhos). Como exigir que não sejamos artificiais se hoje em dia o programa mais assistido é um bando de modelos apolíneos passando fome em uma floresta, e que o papo principal dos adolescentes (do Coque ou de Casa Forte) é a nova música de quaisquer Aventureiros do forró. Enfim, as manifestações literárias atuais estão fazendo o que sempre fizeram, refletindo o pensamento da sociedade vigente.
Pronto: A pessoa que lê esses parágrafos pode pensar que este que vos digita acha tudo que está acontecendo por aí pode ser considerado literário? Minha resposta pode ser sim e não. Minha resposta positiva se baseia em dois pensadores importantes, o primeiro Antônio Cândido, que considera os textos do tempo colonial brasileiro não uma literatura propriamente dita, e sim, manifestações literárias. E o segundo é Nietzsche que afirma que o tempo e a história são cíclicos. Penso na teoria do Crítico literário porque atualmente o valor da literatura está muito ligada à performance, ou seja, artistas pulam do 4º andar de um prédio para expressar seu lado poético, fecham cruzamentos de cidades movimentadíssimas para no final falarem “ ...ser ou não ser, eis a questão...” O que pode estar acontecendo hoje pode ser essas manifestações que fala Antônio Cândido e não propriamente literatura. Por isso o filósofo me veio à cabeça. Como nada (pra ele) é linear essas tais manifestações podem estar acontecendo novamente no Brasil atual da mesma forma que acontecera outrora. Entretanto, não só de espetáculo carnavalesco-literário vivemos hoje, existem escritores que ainda preservam a essência da literatura: Não revelar, sugerir, procurar a palavra certa para a imagem sentida. Mas a crítica com seu olhar lobo mal disfarçado de chapeuzinho, não sei se por preguiça ou oportunismo, ainda não soube enxergar e entender essa nova estética.
Com a velocidade da tecnologia da informação, a arte também não ficou de fora desse banquete e a “blogueteratura” está aí. Muita gente que escrevia e encontrava a barreira burocrática editorial pela frente hoje tem a facilidade de ser lido na Rússia, no Rajastão, nos Estados Unidos ou em Ouricuri.
Isso é bom? Não sei, mas a crítica tem que analisar essa atual conjuntura com cuidado, e não fechar os olhos e desprezar o que está sendo escrito hoje, quem sabe se no meio desse desprezo não surge um Manuel Bandeira, um Graciliano, ou até um imortal, mesmo depois de morto, como Machado de Assis, só que com alguns megabytes a mais.
Bem ou mal “isso” é o que estamos escrevendo hoje, mostrando toda nossa deformidade e refletindo (bem ou mal) nossa visão de mundo e pensamento em relação à condição humana. Nós críticos, temos que tirar mais uma vez o véu da tradição e tentar entender a cultura contemporânea. E se ela é um eterno não-ser, só o tempo dirá a resposta, aliás, não são as perguntas que movem o mundo?

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Crítica social em “A Relíquia” de Eça de Queirós.

Dizem os filósofos modernos que para um homem ter a felicidade plena é preciso ele conciliar harmonicamente três itens: o sexo, o dinheiro e ter uma religião, ou seja, esse homem não poderá nem se exceder demais com o amor se não influencia no dinheiro, não pode se exceder demais com a religião se não poderá influenciar no amor, e assim por diante. Mas quando essa harmonia se quebra, ou então se desvincula para um dos itens citados, o que o homem faz? Ou então esse homem usa um desses fatores para conseguir o outro? Esse desencontro entre esses temas tem sido muito explorado pela Literatura. Dentro dessa vertente cultural existe uma escola estética que dedurava e dissecava as fraquezas humanas de forma mais evidente, que foi o Realismo.
O escritor português, Eça de Queirós, é incontestavelmente um desses dissecadores da sociedade em que vivia, no século XIX. Em meados de 1887, segundo os historiadores da obra queirosiana, foi lançado o livro “A Relíquia”, cronologicamente marcado na segunda fase da obra do autor, na qual, foram publicadas as obras consideradas mais críticas e que tinham se encaixado perfeitamente nas estéticas realistas:” O crime do padre Amaro”,” O primo Basílio” e o aclamado” Os Maias”.
O projeto literário de Eça, fortemente influenciado por Balzac, visava “alfinetar” cada setor da sociedade portuguesa em cada livro que o autor escrevesse, desse modo, em “Os Maias, a família burguesa de Lisboa é fortemente criticada por Eça de Queirós, mostrando os seus vícios, suas fraquezas, suas comodidades de viver só por um nome. Em o “Primo Basílio” a traição e o amor são pano de fundo para a crítica sagaz de Eça. Já no “Crime do padre Amaro” a religião é esse pano de fundo.
A pessoa que lê “A Relíquia” responde a pergunta que fizemos anteriormente, o que acontece com o homem que o usa o fator religião para tentar conseguir o fator dinheiro? No livro, Eça de Queirós faz uma crítica a fé cristã através de uma personagem picaresco, o Teodorico Raposo, que faz uma viagem à Jerusalém e ao retornar pensa que traz consigo “ relíquias” para manipular a fé de sua tia, a Titi, e com isso herdar todo o dinheiro da velha. Durante todo o livro a tia pensa que o sobrinho está mesmo devoto, mas quando abre a relíquia, que para ele seria os espinhos postos em Jesus na hora da crucificação, na realidade era uma roupa de dormir de uma de suas amantes do Oriente Médio. E com isso o canastrão perde a herança.
A análise critica queirosiana gira em torno de três palavras: descrença, reflexão e atualidade.
Quando falo em descrença é que o autor português critica a ingenuidade que o personagem principal, O Raposo, lida com o amor, que a primeira leitura ( e olhando com olhos atuais) pode parecer paradoxal, como um homem tão entregue e experiente na profanidade pode ser tão ingênuo que as mulheres que se aventuravam em seu leito, seriam o eterno amor de sua vida. Esse ponto é uma das principais características realistas e que Eça soube dominar bem na Relíquia, a volta da humanização da mulher, que diferente da escola literária que antecedeu o realismo, analisava a mulher como quase divina e inalcançável. Ainda sobre o ponto de vista da descrença, a crítica de Eça é descrente com a própria forma de ter fé do povo português (e, por conseguinte o mundo ocidental) que pensa que através de símbolos e imagens irão chegar perto do sagrado. “A Relíquia gira em torno desses símbolos, a coroa de espinhos, a água do Rio Jordão, os pregos que crucificaram Jesus, entre outros. Portanto, com bons olhos críticos Eça de Queirós é descrente tanto com o amor quanto o modo de ter fé do povo português.
Falo em reflexão porque por intermédio de caracteres históricos, filosóficos e científicos, o autor analisa a condição de se acreditar nas duas principais formas de conhecimento: a ciência e a religião, que embora possam parecer tão distantes Eça de Queirós em “A Relíquia” deixa parecer tão iguais, ou seja, profundamente falaciosas.
A reflexão critica sobre a ciência fica evidente no pesquisador alemão, o Topsius, que às vezes pode parecer doutoral, mas ao mesmo tempo engana, incentivando o Teodorico a enganar a tia. Além de dar informações erradas sobre personagens e divinizando outros que não tiveram papel relevante na história cristã. E através do sonho de Teodorico que a critica reflexiva de Eça cai em cima do cristianismo, em duas partes em especial, no julgamento de Jesus, no qual, o autor português analisa que foi um acontecimento mais político do que religioso, e quando Raposo conversa com patriarcas judeus. Nessa passagem Eça compara o modo como o judaísmo enxerga o Jesus de Nazaré, e a forma como os cristãos o divinizam, para esses ele é o filho de Deus e para os outros ele é apenas mais um dos profetas que se espalhavam na Jerusalém daquela época.
Falo atualidade porque mesmo o autor falando da sociedade do século XIX, o enredo parece estar falando de nós. Quem nunca encontrou essas “relíquias” nas igrejas, nas ruas, no comércio informal, nas lojas de discos, enfim me parece que o picaresco Teodorico Raposo permanece flutuando por entre os modernos, enfiados em gravatas e carros de luxo, circulando pelas cidades, comercializando a fé de Titis de vários sotaques espalhados pelo mundo. Entretanto, para afirmar esse último comentário temos que redefinir o conceito de picaresco, porque o autêntico picaresco sempre se dá mal no final da história, e os atuais Teodoricos nem sempre, ou quase nunca, seguem essa risca.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

O véu

Gosto de vir aqui. Sinto-me bem em sentir e ver as coisas assim pelo outro lado, por causa das misturas das cores, sabe? E de sua Geometria. Não que eu tenha pouca coisa para fazer, pelo contrário. A cada mudança de olhar percebo que o tom opaco e dissimulado dessas luzes que brilham meio apagadas está assim por minha culpa, não sei se por displicência minha ou se é vingança, por elas nunca saberem me administrar perfeitamente. Tolas. Ou sou eu?
Desde a última vez que levantei o véu para ver essas famigeradas luzes, estou sentado nesse banco, refletindo. Pelo menos no nosso lado, isso se chamava banco sei lá. Espera um pouco. Isso é banco? Pergunto a uma luz negra que sorria amarelamente para mim, e se movimentando em semicírculos. É senhor, é sim um banco. Acho que ela te reconheceu. Justo, quando elas me conhecem ficam assim surpresas. E isso é uma das coisas que não consigo entender. Eles nos vêem perfeitamente, mas a imagem que temos delas não é tão uniforme não é? Há séculos que isso não mudava. De certo essas infames estão se apagando com mais facilidade, e é evidente o motivo. Também concordo. Vês... lá vem elas! Elas quem? As que estou observando desde que você chegou aqui. Hum... estranhas não? As mais estranhas e interessantes que vi chegar. Ah! Mas não reclames, pois quando tu chegaste aqui tu eras semelhante a elas, opaco, confuso, atordoado, mais constrangido do que tudo no mundo. Só há alguns minutos que levantaste o véu e já queres se sentir diferente tu tens muito que aprender ainda não tu conheces nada aqui. Minutos? Para mim parece uma eternidade. Essa presunção dos recém-chegados é um pouco difícil de tirar mesmo. Sossega. Desculpa.
Vê lá... São três, belas... Contudo sua pequenez é tão imensa que não conseguem perceber que na verdade são uma só. Uma influi no brilho da outra, estão interligadas, por um fio condutor violento, porém prazeroso, místico, desafiador, e que falo por toda a experiência desses cabelos brancos, só perceberam a diferença depois que levantarem o véu. Sim... Agora eu percebo, estou vendo o fio condutor, é lindo mesmo. Me dá saudade lembrar que já tive um. Pois é. É impressionante mesmo, como é belo, um azul cintilante que transborda os limites da perfeição, entretanto, nessa alternância de luminosidade também vejo cenas disformes, lágrimas, e o desrespeito para com o senhor.
Veja a luz clara. A primeira vez que bati meus olhos nela gostei da sua empolgação, seu sorriso era azul, os olhos carregados de luminosidade e gana. Inocência. Ela não via nada à sua frente apenas a vontade de se tornar grande, conseguir que notem sua beleza e juventude. Tenho que confessar que é dessa que mais gosto. Esse período da luz é que nos faz continuar a viver, levantar o véu quantas vezes for possível, e com isso não se arrepender nunca sabendo que vai ver um sorriso desses sempre. Não só eu a admiro. Dentro dela mesma tem outra admiradora. Quem? Ora, não percebes? A luz quase apagada. Vê o olhar de admiração e nostalgia para a luz mais clara, não estás vendo? Essa nostalgia é porque ela já foi assim e sente saudade do tempo em que brilhava mais, mas agora é tarde. O desejo dela é voltar a ser a luz mais clara. Se pudesse nunca se deixaria cometer os mesmos erros de quando foi essa aqui. Essa qual? Nossa! Como você está displicente hoje não? Essa aqui, a luz que brilha.
A mais feia de todas, renega tanto a mais clara quanto a mais apagada. Presunção em forma de luz. Acha que seu grau de perfeição e maturidade chegou ao extremo. Ledo engano. Nessa fase é que acontecem as piores besteiras. Essa é que pode destruir a qualquer momento o fio condutor. Faz com que levantem o véu antes do tempo sabe?
Do mesmo jeito que você a admira, a luz mais clara também gosta muito do senhor dá para ver no seu semblante. E La me tem por completo, me usa como se eu fosse o único brinquedo que ela tem. E eu gosto disso. Me faz sentir linear e não cíclico entende? Sua sagacidade me fascina, embora saiba que ela vai me deixar, e não vai perceber isso. Todas são assim, inclusive você. Sério? Eu também lhe abandonei? Não tinha percebido. Repito: como todas. Quando ela mudou de clara para piscando sabe o que ela me disse? Não. Fale.
- Não vou me esforçar tanto. Pra quê? Eu tenho o senhor à hora que eu quiser. Quando elas começam a piscar o primeiro sentimento que aparece é o deboche. A luz apagada também concorda com o senhor. E com toda sua franqueza de luz forte me disse: Não ligue, ela vai perceber isso, quando acordar as lembranças que terá do senhor serão mínimas, e só se arrependerá quando levantar o véu.
Posso dar um palpite? Claro. Fale. Ligue o fio condutor de volta? O senhor pode fazer isso? Claro que sim, mas ela vai cometer os mesmos erros de sempre e eu já estou cansado disso. Mas dê uma chance. É que ela aprenderá alguma coisa diferente. Tá bom, vê só como é bonito elas se separando e ligando o fio condutor...

terça-feira, 2 de junho de 2009

Pater


Gosto quando foges, assim...sem me avisar
Os lobos engravatados pelas esquinas é que me avisam aos berros
Que te preciso, que estás comigo, mas como te ver?
Não te mostras se escondes
Faz tempo que ages desse jeito
até te vi uma vez
de palitó de linho, cigarro na boca
chápéu de malandro, mesa de bilhar
Rindo meu choro, corando minha tristeza
Bufão.
Quero que tires o véu, juro, mas não agora
Eu velho, não doente, são
Pra bater um papo daqueles entender teu desleixe
Como não vês? olha ao redor...
Barro destruindo barro pela pólvora
Anjos dionisíacos com cifrões nos olhos
procurando libido
nos outros
Mas eu sou assim mesmo, relaxa, eu te entendo
deve ser muito ruim ser único
Eterno, efêmero
No fundo tu querias ser eu
mortal, fraco, apaixonado
menino
Não, não.. Não te aflijas
Sei que não gostas de minha desconfiança
E irado confundirás minha sorte
dessa maneira vou de barro ao cimento, imóvel
Mas tire o disforme da nossa imagem no espelho
E mostra como tu és
Se é que essa não é tu face verdadeira
Ainda bem.