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segunda-feira, 11 de abril de 2011

Quase vista.

Tudo que ela precisa na vida era um simples olhar , nem que fosse de desprezo. Não aguentava mais , saiu , bebeu , curtiu e no final das contas quase conseguiu o que queria: Um olhar de soslaio do agente do IML.

domingo, 6 de junho de 2010

Match Point

Ultimo lance, última bola, o juiz apita. Match point. Momento de decisão. Saio do trabalho como todo dia às 18:00hs, mas dessa vez com pensamentos diferentes da rotina: cerveja, mulheres, dívidas, números, a pelada de domingo,outra pelada no mesmo domingo e o gol perdido. Ponto pra mim. Você sempre disse isso, que eu deveria mudar meus pensamentos, refletir um pouco, mas até hoje não sei sobre o quê? É... é essa a palavra: reflexão, neste momento sei o que é. E como sempre é você meu ponto de ebulição. Fervi. Foi ontem, com aquela discussão. Mais uma discussão. Ou D.R. como você gosta de falar, acho isso ridículo, abreviar uma situação tão estranha, mas era sempre assim você gosta de abreviar as coisas. Até uma discussão. Continuo... Ao invés de pensamentos simplórios neste momento penso em alguma coisa interessante: tomar uma decisão. Hoje, depois do trabalho, do enfadonho trabalho, da monotonia-vida, vejo desse ponto onde estou, olhando para baixo, que nosso relacionamento não teve o ponto de cruz tão entrelaçado. Sempre dava para desconfiar que mais cedo ou mais tarde o novelo poderia se recompor. E essa decisão dissolveu-se em duas. E de um ponto a outro a intersecção sou eu? Ou você?
O ponto principal disso poderia ser aquele “ não aguento mais...” ou aquele “ quero terminar” que você falou ontem, mas acho que não... pontos de vistas diferentes de vida foram o estopim.
Os ditados populares não são muito certos né? Não funcionam com muita gente, inclusive conosco. Lembra, tua irmã sempre falava: com esses dois é assim, os opostos se atraem. Agora vejo que os opostos se afastam cada vez mais... rotina faz isso. Você não acha que eu me incomodava... era um saco escutar você falar duas vezes ao dia se o café estava no ponto. Encontrar calcinhas debaixo da cama e ver minha camisa que usei na segunda implorar na sexta-feira, em sete idiomas, para ser lavada. Entretanto, eu ainda não sabia o que significava isso: reflexão. Agora eu sei. Sei?
Enfim, esse vinho, e essa propaganda piscando nos deixam comovidos como o diabo... Match point, último lance, o juiz apitou, Game over... ponto final.
... Dentro do carro eu não via nada. Também... depois de ontem, como ver. Ele nunca tomava decisões, e sempre ficava a minha responsabilidade. Mas ele é muito infantil ainda... infelizmente.
- Relaxa menina, liga o rádio para passar o tempo, ele te ama, daqui a pouco ele tá,em casa, de novo. Não vai fazer nenhuma loucura.
-É né? Daqui a pouco ele tá em casa.
-Pois é.
Depois de ouvir chiados e testemunhos evangélicos o rádio é sintonizado e anuncia: Atenção motorista há um ponto de bloqueio na Avenida Conde da Boa Vista, o fluxo de carros está intenso, mas o trânsito continua parado. De acordo com a informação da companhia de trânsito, ocorreu um suicídio. Um homem de aproximadamente 30 anos se jogou de um dos prédios da avenida, caindo em cima de um ponto de ônibus... Mas agora, vamos continuar com as mais pedidas do dia!!! Agora com vocês o Reggae descontraído da banda ponto -de- equilíbrio. São exatamente 19: 35 no grande Recife.
- Poxa... que bom que estamos em outro ponto da cidade. Engarrafamento nessa hora...

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Transparência Intransponível?

- Foi como?
Eu pensava:
Eu não sei por que saio na sexta-feira. Às vezes fico imaginando que pode ser pelas meninas. Adoro freqüentar lugares estranhos. Mas defina estranho? O lugar só se torna estranho para as pessoas que nunca vão a esses lugares, na segunda vez que aparecem por lá, já são conhecidos dos garçons, as mulheres os chamam por apelidos carinhosos do tipo: grandão, gatinho, delícia, e por aí vai. Penso também que pode ser para espairecer, sair daquele famigerado MSN, do Orkut, parar de escrever poesia no meu blog inútil-quase-nunca-visitado. É... Hoje em dia parece que quando compramos um byte, fazemos um site, e assinamos a velox, cada filigrama de você está sendo usado a serviço da solidão. E ainda dizem que a internet é feita para unir as pessoas. Balela. Acho que em cada pixel da porra daquela tela é uma alma que aquele nerd de tridente roubou de nós. Hoje é assim, cada vez mais as coisas estão diminuindo. Quem é que leva um micro-system para um acampamento? É isso mesmo, ninguém. Todo mundo fica enfiado naquela merda de MP- não-sei-das-quantas. Tudo ficando menor: as coisas, os sentimentos, as pessoas, as frases. Até as frases? Um casal namora assim atualmente, com duas palavras: Já é? Já é. Pronto: Inicia-se uma boda de ouro. É foda. Imagine os netos desse casal na noite de Natal perguntando a eles como eles se conheceram:
-Vovô?
-Diz aí brother.
-Como foi que o senhor conheceu vovó?
-Foi assim... Eu cheguei para ela, estava tocando Aviões do forró, e cheguei para ela e disse: Já é? Ela olhou para mim e disse: Já é. Foi amor à primeira vista.
Patético. Eu sei que isso não é remorso, inveja, solidão, isso não é porra nenhuma, mas o que eu queria mesmo que acontecesse é que do nada... Assim... Na frente de uma banca de revista, alguém me notasse, e dissesse uma palavra que não escuto há muito tempo: oi. E acabasse de vez com essa minha transparência intransponível, para enfim dizer (e aí brother?) na noite de Natal para o meu neto. Mas do jeito que vai isso é só viagem de um cara só. E também eu não sei se daqui a alguns anos vai ter banca de revista, se vai ter menina (as meninas andam de mãos dadas nesses tempos) se vai ter neto. Enfim, vou arrumar um trabalho que é o melhor que eu faço. Era assim.
-E aí como foi?
Eu pensava:
Não faço questão de ir à praia aos domingos, nem de ir tomar uma cerva com os amigos num sábado à noite, o que me importa mesmo é a sexta-feira. Sexta-feira é um dia massa. Massa não por causa das meninas, dos lugares estranhos que freqüento, mas por causa dele. Às vezes acho que estou delirando, desde a infância tenho minha sexualidade definida, e sem medo de nada batia no peito e dizia: Eu gosto de mulher. É... Gosto de mulher. E minha mãe ficaria desapontada se eu não cumprisse -à risca- a tradição familiar. Mas semana passada aquele esbarrão que dei nele virou minha cabeça. Foi de propósito eu sei. E se não fosse daquele jeito? Como seria? Ele não me nota. Sempre de cabeça baixa. Adoro esse jeito dele. Nunca gostei de caras com esse perfil. Magrinho, óculos de armação preta, cabelo lisinho. Não queria dizer, mas vou: Meio EMO. Achava os EMO’S a escória do mundo, depois do esbarrão mudou fácil minha opinião. Que coisa estranha, senti vontade de ter um homem em meus braços, em cima de mim, falando todas aquelas sandices que os atores pornôs falam no ouvido daquelas vagabas. Ele é lindo, porém inacessível tenho que tentar outra coisa. Quem sabe um oi? Que coisa estranha eu gostando de homem? Nunca senti isso, mas tenho que dar a cara à tapa. Sei não, mas quero.
E depois:
Agora deu: Sozinho, liso, desesperado e com outro não na minha coleção de nãos nas entrevistas profissionais. Não. Outro não, não. Pode colocar aí escritor, em caixa alta e em negrito NÃO. Só falta agora virar bicha... É fogo. Mas está todo mundo virando? É foda. Que é isso, pensar em ser bicha já é viagem demais para uma só cabeça desesperada, e além do mais, seria uma decepção não manter – à risca- a tradição familiar: Gostar de mulher. Sabe de uma coisa: Eu preciso de uma mulher... Daquelas... De filme pornô... Falando e sussurrando aquelas cachorradas que elas dizem na cara dos tarados atores. É... Eu preciso de uma mulher, nem que seja de papel. Hum... é foda, nessa idade? Pois é,quem não tem Luana Piovanni caça com Gretchen mesmo. Vou ali à banca.
- Quem é Gretchen?
Decidi:
É hoje. Estou aqui nesse banco há um tempão e nada daquele gostosão passar. Tenho que saber se eu quero isso pra mim mesmo, se é bom, se vou achar estranho, se vou achar gostoso.
Lá vem ele. É agora. Vou lá. Levantei. Fui de encontro a ele.
-E depois?
-Disse oi.
-E ele?
-Já é.
-Foi assim mesmo vovó?
-Foi brother.
-Vamos cantar parabéns papai, afinal não é todo dia, principalmente nos dias de hoje, que alguém completa bodas de ouro.
-Pois é.

Hangner Correia
16/12/09

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

O velho? O novo?

Silêncio. Mais uma vez esse companheiro incômodo de todas as horas o ajuda a progredir (regredir?) de um pensamento para o outro, mas sem paradas para cafezinhos. Barulho? Apenas o eterno dialogar cotidiano entre cães e galos rompe sua atenção fixa no telhado. Vez por outra ele ouve o friccionar dos dedos em sua barba, e o ziguezaguear de Kurt (o gato) por entre suas pernas (inertes). Ele era assim, disperso, tonto. Não conseguia terminar uma frase sem ninguém lhe dizer o final. Esse é seu mundo, só pensamento, Errado? Esses pensamentos ainda lhe dariam frutos.
Diferentes dos outros moleques de sua idade que apostavam quantas bocas beijam numa noite, indiferente de que sexo for, e procuram na internet o novo sucesso dos “Aventureiros do calypso”. Ele tinha um projeto simples. Simples? Ser homem. Já imaginava seu apartamento quitado em trinta anos, seu carro semi-novo de dez anos atrás, sua esposa e filhos alegres vendo chegar o fim do mês, para no final das contas, os esporros, as dores de cabeça e as desavenças profissionais serem distribuídas em garças, onças, carpas e araras sem sobrar nem um beija-flor pra ele. Futuro? Enfim, o senhor classe-média.
Amigos? Tinha, porém ficaria perfeito singularizando o início do parágrafo. Amigo? Isso, apenas um. No entanto, pra ele era o melhor, o perfeito. Morava com ele, todas as noites sentado da mesma forma todas as horas, o Idiota na mão cruzado entre os braços, bermuda sem camisa, chinelos ou pantufas?
Era igual a ele. Argumentava com as sobrancelhas, não precisavam explicar nada um pro outro, que se entendiam (Se entediam? ) Reflexo? Projeto? Silêncio.
O lugar não tinha um cheiro só, variava. Pra cada canto que se apontava o nariz sentíamos fragrâncias distintas. De um lado peixe cru, do outro ervas medicinais, castanhas do Pará mescladas com cerveja quente, sem contar o suor misturado dos nativos culturais famintos e dos gringos ingênuos conhecedores de coisa nenhuma, cheiro de mercado de São José.
Ao fundo, seis ou oito olhos sobrepostos, admirados, vendo ouvindo ele contar sua paixão: a leitura.
- Foi assim que me vi feliz, lendo. Mas não pensem que a felicidade tá ali naquele carrão lá fora, naquela menininha que vocês namoram ou no dinheiro, e sim, está na sua verdadeira vontade de se apaixonar por alguma coisa, e fazer dessa “coisa” sua vida, contribuir em algo. Está aí a essência de ser feliz.
- É moço, mas com dinheiro a gente pode ser infeliz em Paris, Nova Iorque...
- Oxe tio, e tu não é rico não. Tu é só feliz lendo é?
- Não, não. Respondeu ele depois de uma longa gargalhada. Mas eu tenho um imenso prazer em descobrir as coisas e descubro nos livros. O livro na verdade não serve pra nada... Fechado. Ele fechado só serve de enfeite nas estantes. Vou contar um segredo pra vocês: muitos professores da faculdade nem lêem aqueles livros todos é só pra “rebolar”. Continuando... Esbraveja ele em tom doutoral. O livro só tem vida quando você o abre e dá vida àquela história...
Vez por outra, ele fazia isso: sentava no meio de uma praça ou mercado e falava de Literatura com os moleques, muitos não entendiam nada, porém alguns até escreviam seus primeiros poemas, eles escreverem para ele já era o ápice. E dizia que só fazia isso pra distrair. Sentia-se feliz assim, distribuindo um pouco de paixão pros outros. Felicidade. Às vezes se perguntava em que beco da adolescência ainda não tinha descoberto isso, que pra ser feliz só basta uma coisa: fazer o que gosta.
Amigos? Muitos. Ficam maravilhados em vê-lo falar. Hoje em dia nem sombra daquele fantasma que via todos os dias na sua casa: Lento, silencioso, disforme pensativo, não se apercebeu que perdia tanto tempo. Pensando. Ver seus filhos brincando sob suas pernas (agitadas) era ver a contemplação da alegria personificada em anjos. E se cambaleasse um pensamento negativo, poderia olhar pro lado e ver sua esposa lá, parceira, amável. Irmã. Mas algo ainda o agoniava.
Não sabe bem porque, mas se viu caminhando pela praia. Era o único esforço físico que fazia vez por outra. Vendo um quebra-mar: sentava, pensava. E parece que seu projeto estava cada vez mais longe. Olhar cansado pro mar, sempre olhando pra frente (ou pra cima) nunca pra trás. Olhou pra trás, e o crepúsculo atitudinal aconteceu. Viu um velho/moço contemplando-o. Não conseguiu mais pensar em mais nada. Era ele. Eu?
Por que perdi tanto tempo? Não quero que aconteça isso com os outros. Tenho que falar com ele. Comigo?
Não sabe bem porque se viu caminhando pela praia. Sempre fazia isso pelas manhãs. Porém à tarde, nunca. Vendo um quebra-mar: nem parava. Parou. E percebia que realizou seu projeto. Olhar sereno pro mar. Sempre olhava pra frente... Então, o crepúsculo reflexivo aconteceu, viu um moço/velho contemplando-o. Não conseguiu dizer mais nada era eu. Ele?

Hangner Correia
15/09/2009.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

O véu

Gosto de vir aqui. Sinto-me bem em sentir e ver as coisas assim pelo outro lado, por causa das misturas das cores, sabe? E de sua Geometria. Não que eu tenha pouca coisa para fazer, pelo contrário. A cada mudança de olhar percebo que o tom opaco e dissimulado dessas luzes que brilham meio apagadas está assim por minha culpa, não sei se por displicência minha ou se é vingança, por elas nunca saberem me administrar perfeitamente. Tolas. Ou sou eu?
Desde a última vez que levantei o véu para ver essas famigeradas luzes, estou sentado nesse banco, refletindo. Pelo menos no nosso lado, isso se chamava banco sei lá. Espera um pouco. Isso é banco? Pergunto a uma luz negra que sorria amarelamente para mim, e se movimentando em semicírculos. É senhor, é sim um banco. Acho que ela te reconheceu. Justo, quando elas me conhecem ficam assim surpresas. E isso é uma das coisas que não consigo entender. Eles nos vêem perfeitamente, mas a imagem que temos delas não é tão uniforme não é? Há séculos que isso não mudava. De certo essas infames estão se apagando com mais facilidade, e é evidente o motivo. Também concordo. Vês... lá vem elas! Elas quem? As que estou observando desde que você chegou aqui. Hum... estranhas não? As mais estranhas e interessantes que vi chegar. Ah! Mas não reclames, pois quando tu chegaste aqui tu eras semelhante a elas, opaco, confuso, atordoado, mais constrangido do que tudo no mundo. Só há alguns minutos que levantaste o véu e já queres se sentir diferente tu tens muito que aprender ainda não tu conheces nada aqui. Minutos? Para mim parece uma eternidade. Essa presunção dos recém-chegados é um pouco difícil de tirar mesmo. Sossega. Desculpa.
Vê lá... São três, belas... Contudo sua pequenez é tão imensa que não conseguem perceber que na verdade são uma só. Uma influi no brilho da outra, estão interligadas, por um fio condutor violento, porém prazeroso, místico, desafiador, e que falo por toda a experiência desses cabelos brancos, só perceberam a diferença depois que levantarem o véu. Sim... Agora eu percebo, estou vendo o fio condutor, é lindo mesmo. Me dá saudade lembrar que já tive um. Pois é. É impressionante mesmo, como é belo, um azul cintilante que transborda os limites da perfeição, entretanto, nessa alternância de luminosidade também vejo cenas disformes, lágrimas, e o desrespeito para com o senhor.
Veja a luz clara. A primeira vez que bati meus olhos nela gostei da sua empolgação, seu sorriso era azul, os olhos carregados de luminosidade e gana. Inocência. Ela não via nada à sua frente apenas a vontade de se tornar grande, conseguir que notem sua beleza e juventude. Tenho que confessar que é dessa que mais gosto. Esse período da luz é que nos faz continuar a viver, levantar o véu quantas vezes for possível, e com isso não se arrepender nunca sabendo que vai ver um sorriso desses sempre. Não só eu a admiro. Dentro dela mesma tem outra admiradora. Quem? Ora, não percebes? A luz quase apagada. Vê o olhar de admiração e nostalgia para a luz mais clara, não estás vendo? Essa nostalgia é porque ela já foi assim e sente saudade do tempo em que brilhava mais, mas agora é tarde. O desejo dela é voltar a ser a luz mais clara. Se pudesse nunca se deixaria cometer os mesmos erros de quando foi essa aqui. Essa qual? Nossa! Como você está displicente hoje não? Essa aqui, a luz que brilha.
A mais feia de todas, renega tanto a mais clara quanto a mais apagada. Presunção em forma de luz. Acha que seu grau de perfeição e maturidade chegou ao extremo. Ledo engano. Nessa fase é que acontecem as piores besteiras. Essa é que pode destruir a qualquer momento o fio condutor. Faz com que levantem o véu antes do tempo sabe?
Do mesmo jeito que você a admira, a luz mais clara também gosta muito do senhor dá para ver no seu semblante. E La me tem por completo, me usa como se eu fosse o único brinquedo que ela tem. E eu gosto disso. Me faz sentir linear e não cíclico entende? Sua sagacidade me fascina, embora saiba que ela vai me deixar, e não vai perceber isso. Todas são assim, inclusive você. Sério? Eu também lhe abandonei? Não tinha percebido. Repito: como todas. Quando ela mudou de clara para piscando sabe o que ela me disse? Não. Fale.
- Não vou me esforçar tanto. Pra quê? Eu tenho o senhor à hora que eu quiser. Quando elas começam a piscar o primeiro sentimento que aparece é o deboche. A luz apagada também concorda com o senhor. E com toda sua franqueza de luz forte me disse: Não ligue, ela vai perceber isso, quando acordar as lembranças que terá do senhor serão mínimas, e só se arrependerá quando levantar o véu.
Posso dar um palpite? Claro. Fale. Ligue o fio condutor de volta? O senhor pode fazer isso? Claro que sim, mas ela vai cometer os mesmos erros de sempre e eu já estou cansado disso. Mas dê uma chance. É que ela aprenderá alguma coisa diferente. Tá bom, vê só como é bonito elas se separando e ligando o fio condutor...

segunda-feira, 1 de junho de 2009

O Eterno casulo.


O que pode parecer verdadeiro no cair de uma lágrima desmancha-se nas maiores das falácias.

Mas eu gostei., gostei muito em ouvir aquelas lágrimas...o sussurro... a frase. Sabe aqueles momentos que você sente o coração transpirar? Não? Que pena. Eu senti isso ontem. Mas também eu já desconfiara que iria passar por isso, principalmente depois de tanta humilhação.
E ela sabe que eu precisava ouvir aquilo. Que bom que ela falou três vezes, três vezes cara, você já ouviu isso de alguém três vezes... seguidas, e num choro, tão delirante que dava para sentir o arrependimento cravar-lhe o peito. E ainda terminou a frase com a palavra " muito". Mesmo não sabendo ao certo o que esse " muito" significa. Antigamente eu que falava assim, chorando. Parecia brincadeira de menino ( começava animado e terminava sem graça ) . É irmão. é a convivência que faz isso, desmancha todos os prazeres da vida. A expressão mais singela de afeto se torna tão fácil de esvaziar-se quando pronunciada, assim.... fito o vento, que passa por nós a todo momento ( ou quase ). Mesmo sendo necessário. É... mas parece que quando fica mais forte ao invés de ser bom... Sufoca, entende?. Hum... sei.

Isso não é alegria nem remorso, nem tão pouco tristeza, isso é dúvida, dificuldade imensa de tomar decisões. Que bom que tu me conheces e sabes o que eu passei ( e passo ). Não minta pra mim, no momento da ligação, você queria estar lá...naquele sofá...onde antigamente vocês se deitavam. Não me venha com essa de que está feliz aqui, nessa casa, e que ficaste feliz com o choro dela. Você fica muito mais triste quando entra ali ó!!! Naquela porta de decisões erradas... no esconderijo do conformismo...nessa resignada forma de vida.
Beto e Pedro Henrique conversavam em um muro, meio chapiscado meio rebocado , na frente da casa de minha irmã. Quando eles conversavam, senti que estavam falando de mim, parecia tão familiar as aquelas palavras. As palavras de Beto entravam na consciência como se fosse um uivo me dizendo: Vai Teta, toma a decisão certa , sai do comodismo, não fique resignada com essa situação. Se entregue a essa vontade louca de se jogar no proibido, mesmo que seja para se arrepender depois...

Então, com esse sopro de encorajamento e surpresa que foram as palavras daquele homem, tão dedicado à família, um homem a cima de qualquer suspeita, entregue a moral e os bons costumes e que Teta nunca desconfiara antes, foi que a tornou a realidade - se é que aquela era mesmo a realidade dos sois - E com a voz tremula da irmã, deixou aqueles pensamentos infâmes- ou seriam corretos - e voltou ao mundo dos vivos.
- Beto... amor... vai começar o jogo, não vai ver não?
Foi daí percebeu que na vida há mais interrogações do que pontos finais. Por quê?

A doce vontade de matar alguém


Porra Dalvinha, que japonesinha é essa porra!! Oh pra aí, já fiquei excitado com ela, mas não é só isso não, ela tem um “quê” a mais que eu não sei o que é, mas com toda certeza, dessa vez você esculachou, arrumasse a mulher mais gostosa do Recife...
- Calma Senador, esse “cavalo branco” tá te deixando mais alto do que tu tás acostumado, sossega homem, é só uma mulher. Falou Dalvinha, aos risos, sem antes dar aquela tradicional jogada no cabelo que as putas velhas eram acostumadas a fazer. Hum... Isso gemendo em cima de mim deve ser uma coisa de louco, pense? Sabe quando a mulher sussurra assim... E que você faz pagar todo dinheiro do mundo pra ela... porra essa japonesinha vai ser minha , eu vou lá falar com ela , tu vai ver.
Ao som de “Losing my Religion”, Jennifer dançava, seus quadris pareciam um serpentear de uma naja, mostrava uma sensualidade jamais vista em uma mulher daquela boate, e os olhos dos burgueses estagnados, mudos, disformes, ao ver aquele derramar de libido em cima do palco... E Dalvinha, apenas risos, e uma feição de como se dissesse: Agora eu acertei mesmo!
E ele foi mesmo falar com ela. Depois do show, Jennifer tomava um “ice” sentada em uma das cadeiras de tira stress que Dalvinha tinha comprado na Holanda, com o dinheiro de um programa de Stefanny, a antiga sensação da casa.
- Olá, disse o Senador, surpreso com o medo que sentiu ao chegar naquela mulher.
Jennifer o olhou de soslaio, dando atenção ao político como quem dá atenção a uma caixa de fósforos.
×××
- Chora não Priscilla, eu não tive culpa, não tive como evitar, foi o momento, ele era gostoso demais, bonito, e ainda por cima tava ficando famoso, quem é que não quer ficar com um homem assim? E ainda por cima eu tava bêbada... Mãe, você vai morrer e tu fala, assim... Como se estivesse falando de um vestido estampado, sem graça desse jeito... Você tem que levantar a mão pro céu por que não tem essa maldita... Mas é como se eu tivesse, vou sofrer esse Karma pro resto da vida, tu pensa que é fácil chegar na escola e ouvir os gritos daqueles meninos é? Oh lá vem a filha da aidética... E como você só vem dizer que tá doente agora mãe, porra.
A angústia e a raiva tomavam conta do coraçãozinho daquela menina de 16 anos, ouvindo falar as confissões do passado da mãe. Durante anos seu tempo ficou dividido entre a faculdade, e o pensamento de conhecer o crápula que jogou aquela discórdia e a irresponsabilidade na sua família.
- Mãe tá foda isso aqui mãe, a gente não tem comida mais em casa, meu dinheiro só dá pra pagar a faculdade e comprar teu remédio e tu ainda abusa mãe, quem trouxe essa garrafa de vinho pra cá... Fui eu... Tá vendo, e adianta falar, me esbravejar aqui, você não entende mesmo né? E outra coisa, tu não faz mais do que a obrigação de comprar meu remédio, quer que sua mãe morra é peste?
Ouvindo essas palavras, aquela agora menina-mulher, com cabeça responsável, não podia mais agüentar aquelas blasfêmias que ouvia diariamente da mãe, mas o pior de tudo é que ela mesma estava se sentindo culpada pelas cenas que presenciava em casa: bituca de cigarros por toda casa, uma cheiro insuportável de bebida alcoólica pelos quartos, uma mistura sufocante de cerveja e vinho nos copos. Entretanto, um fator a atordoava ainda mais: estava se sentindo culpada por ter nascido, e às vezes pensava se seria melhor se a mãe tivesse abortado, ela podia ficar na mesma situação: tomando todas, comendo todos, e com certeza não ia sofrer tanto assim, ou será que ela tá sofrendo mesmo? Deus é ingrato às vezes né?
- Priscilla, tô indo lá em Biu comprar açúcar... E uma meinha também né mãe? Pensou a menina com uma seca lágrima escorrendo pelo rosto.
×××
- Tanque cheio, tanque cheio! Gritavam os filhos do Senador e mais alguns burguesinhos que moravam em Boa viagem após ganharem mais uma “pega” dos boyzinos de Olinda. Em Recife é assim, depois das baladas os filhinhos de papai, embriagados, vão disputar qual o motor mais potente, qual carro é mais veloz, e qual é o mais irresponsável da turma, e por aí vai.
- Puta merda, esses pangarés não vão ganhar da gente nunca não é? Grita Jorge apontando para o oponente do racha.
- Oh, meu pai já tá me pedindo pra eu gastar dinheiro com outra coisa, porque tanque... Isso não me pertence mais, é só vocês que pagam porra, bando de florzinhas, Esbraveja aos risos o outro filho do Senador, Plínio.
- Vamô tomar outra cerva ali Plínio.
- Vai pegar outra cerva ali vai gostosa... Qual tu queres? Skol, Schin? Mas tu é pobre mesmo né, vagaba? Traz aquela da garrafa verde que eu não sei nem o nome, agora vê se traz gelada...
E do outro lado do posto Plínio aos amassos com uma loiraça, e depois conversavam intimamente sobre algumas decisões que o menino queria tomar.
Eu já tô me cansando dessa porra tá ligado? De ficar por aí de bobeira, bebendo, fazendo pega, comendo mulher barata... Opa, olha o respeito comigo seu Plínio... É não Micha, desculpa, mas tu tá ligado que agora eu tô em outra, e você tá fazendo parte dessa mudança... Hum, que bom ouvir isso... E deram outro beijo molhado daqueles que fica difícil distinguir qual boca é de quem. E seguido de um sorriso cristalino de Michelle voltaram a conversar sobre a mudança de Plínio. Mas antes o menino ouviu dois braços lânguidos e uma cabeleira, que era a mistura da de Einstein com a de Ronaldinho Gaúcho, a chamar por ele.
- Plínio, Plínio, Era Jorge gesticulando para o irmão ver uma japonesinha que passava do outro lado do calçamento. Se fosse só acenar tudo bem, mas não, ele tinha que falar alguma coisa com ela e com certeza saindo daquele rapaz não seriam palavras fáceis de ouvir.
- Ei japa, eu to ligado que tu trabalha aí na Dream’s né? Oh aqui pra tu oh, tá já ficando duro.
Plínio riu com o canto da boca, mas o interesse principal do garoto naquela noite era a conversa com a loira.
- Vê só Micha, hoje a gente tem um pega pra fazer com os pirraia lá de Casa Forte, e eu te juro que esse vai ser o último... Ah, homem é tudo igual mesmo, se eu fosse acreditar nas tuas promessas Plínio, você já tinha parado de fumar a “pedra”, tinha parado de ir na Funfashion...Oxe loira eu já parei faz tempo...Mentira, Mari viu tu fumando com os boyzinhos lá na Funfashion, e agora duas mentiras numa só é? Porra isso já faz três meses véi! Tá, tá, tá bom, não vou discutir com você, promete que vai ser o último mesmo?
Jogando aquele busto lindo e aquela barriga de pelinhos douradinhos em cima de Plínio, Micha disse com a voz áspera em seu ouvido: Hum... Tesão, vai ser o último mesmo vai? Fala pra tua loira fala.
E sufocado de desejo pela menina o filho do Senador disse: Prometo. Depois é só “Love” contigo. - Agora vem cá vem, vamô dar aquela gostosinha ali atrás do banco do carro, é grande cabe nós dois, tranqüilo, tranqüilo. E mordendo os lábios a loiraça disse: Hum, vamô.
E aos risos e tapinhas na bunda Plínio levou Micha para o carro, mas antes de entrar fez um sinal pra Jorge que queria falar com ele depois. O irmão não viu o aceno, pois fazia gestos obscenos para a japonesa que passou na calçada, e fez um comentário com Mariana.
-Porra Mari, que bucetinha linda aquela japa tinha tu viu? E a menina com a face roxa de cólera fala para o seu namorado.
- Filho da puta, como tu tem coragem de falar isso pra mim... Oxe, que nada mulher, eu falo como eu quero e do jeito que eu quero, tu é o que minha? Minha mãe é? É?
Apertando fortemente o braço de Mariana apontou para o carro do irmão e disse: Tá pensando que eu sou feito aquele otário ali é, eu sou “rochedo” véi, eu sou foda... Como a mulher que quero, a hora que quero, e dane-se essa merda de sentimento, quem tem sentimento ou é freso ou tá perto de casar, agora faz o seguinte, liga pra merda do teu pai e manda ele vim te buscar, porque eu não vou te levar pra casa hoje não, me arretei, tenho um tanque cheio pra ganhar de novo hoje.
Mari sentou na calçada e chorou. Foi então que Plínio e Micha foram falar com seus respectivos irmãos.

×××
O que é que o senhor quer comigo? Nossa! Não me chame de senhor, eu sei que poderia ser seu pai, mas não sou tão velho assim, assim você me ofende, o problema aqui é que você é muito nova... Não é isso, é que respeito os cabelos brancos das pessoas, é sintoma de sabedoria e de responsabilidades... Meu anjo, se eu fosse tão responsável assim como você diz , eu não seria Senador da república... Hum, Senador é? Um homem poderoso desses de ti-ti-ti com uma mulher como eu? Esse ti-ti-ti que estou tendo com você aqui, se fosse com outras mulheres da casa com certeza não aconteceria, você sabe disso, essas mulheres vêem uma onça pintada num papel e já pulam em cima do homem, e quando sabem que sou Senador, aí é que se jogam mesmo, com você foi diferente, você é enigmática, até já conversei com Dalvinha dizendo que você tem um “quê” a mais, e que eu estava fascinado por você desde o primeiro momento que pisaste naquele palco, porra você é gostosa demais meu anjo.
Foi daí que o Senador escorreu sua mão grossa e calejada nas pernas de Jennifer, subindo e descendo, deslizando os dedos grandes naquela coxa que era tão lisa quanto uma seda japonesa, nem parecia pele de mulher da vida. A repulsa da menina foi tão nítida que o político derrubou seu “cavalo branco” no chão.
Não faça isso senhor... Por quê? Eu não fico com homens só pelo dinheiro, é minha primeira vez aqui nessa casa, e não quero me entregar ao primeiro cachê que aparece... Mesmo se você ver o que tenho pra lhe oferecer? Mesmo.
O Senador quase que deu aquela gargalhada sarcástica que dava no plenário, porém, pensou com seus botões: Só me faltava essa, uma puta inteligente e sentimental. Entretanto, ele sabia, estava conversando com uma menina - ou já seria mulher - , diferente, que gostava de dialogar, sensível, no fundo no fundo igual a ele. E era isso o que o atraía. A semelhança daquela figura emblemática com ele próprio.
-Veja só, eu estou muito aflita porque é a minha primeira vez enfrentando esse clima, acho isso tudo muito sujo, o fato da mulher se vender para isso, desculpe me abrir assim com o senhor, mas é que já estou podendo confiar no Senh..
O Senador a interrompeu e disse: se você me chamar de senhor mais uma vez, juro que te pego pelo braço e te levo pro quarto agora, esse teu jeitinho tá me matando, agora assim, me chamando de senhor. Olhe só, eu sei, você tem cara de ser universitária, e que tá precisando muito de dinheiro, e tá desesperada pra isso né? A menina concordou de bate – pronto. Vamos fazer o seguinte, o primeiro sinal de entrosamento entre duas pessoas que querem se envolver sexualmente é um beijo não é? Então, vem aqui vem meu anjo...
A menina encostou os lábios vermelhos em seu pretendente e a sensação foi indescritível, foi um misto de raiva com tesão, afeto com saudade e além de tudo, molhado, muito molhado. Daí o homem não agüentou mais, levou a mestiça para o quarto para tentar fazer o que já queria ter feito desde que entrou na casa. E com um sorriso pretensioso olhou pra ela e disse: Você não vai se arrepender do que vou fazer com você. Vou te ajudar muito, você merece.
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- Oh de casa, oh de casa! Grita uma mulher na frente da casa de Priscilla. A menina vinha na esquina e gritou: - Oh, tá pensando que isso aqui é a casa de Mãe Joana é?... Oh meu anjo, como tu tás linda mulher, não não, presta atenção que corpo bonito da porra menina... Oxe, para tia... A tia da menina notou uma cor estranha em suas faces, coisa que não era comum naquela guria.
- Hum, mas essa cara não tá boa não nêga. Me diz o que tá acontecendo...é mainha mulher, mas eu digo lá dentro, entra tia Lúcia.
A princípio Lúcia estranhou que a irmã, Dona Suzana, estivesse dormindo àquela hora, mesmo com a doença, ela era uma mulher ativa, sempre dava suas voltinhas por aí, rindo e cuidando da casa. Por isso a tristeza de Priscilla estava estampada em seu rosto, e isso atormentava a tia, mas ela sabia que iria descobrir o que era, mesmo não sendo fácil arrancar confissões domiciliares de sua sobrinha.
- Conta aí nêga, como tu tás? Parece que não tá essas coisas toda não né? Que danado de bagunça é essa mulher, porque essa casa tão bagunçada, é calcinha pelo chão, olha só essa poeira na estante, aqui tá fogo mulher. E a menina de olhinhos puxados e de cabeça baixa falou para a tia.
- Nada não tia deixa pra lá, essas coisas de casa acho que só diz respeito a gente mesmo... Mas que danado de orgulho é esse menina, tu sabe que eu e teu tio somos o porto seguro de vocês. A gente te criou como se fosse filha, pode confiar, vá diga , estou aqui pra te ajudar.
A menina sentiu que a confiança da tia seria importante e então começou a falar do seu conviver com a mãe, não sem antes enxugar as lágrimas dos olhos.
- É mainha tia, ela tá muito entregue, só quer saber de beber agora, não liga mais para a casa, como tu tás vendo aí né? Não precisa falar nada. E eu tô no estágio e na faculdade, tô ganhando uma mixaria, tô sem tempo pra nada e quando chego em casa , penso que vou descansar , é só discussão com mainha, a sorte é que você pegou ela dormindo, se não ela tava aqui, dizendo que eu tinha que agradecer e tal, porque eu não tenho AIDS, essas coisas, o que eu queria era só duas coisas: ganhar muito dinheiro, conhecer o filho da mãe que fez isso com a gente...Sossega nêga, deixa isso pra lá tua mãe foi muito burra na juventude... Só na juventude? Responde a menina, evidenciando que não queria mais ficar naquela casa. E continua seu desabafo.
- Mas precisa me culpar tia, por tudo que ela fez no passado, se duvidar eu sofro muito mais do que ela... Não fala isso menina, a gente não sabe como é viver com essa doença infeliz... É eu sei tô blasfemando, mas tá foda tia, minha vida tá uma caos, eu queria achar 500.000 reais por aí... de bobeira. Foi então que surgiu um sorriso amarelo no rosto de Priscilla e que a tia acompanhou com um afago na sua cabeça.
Um uivo duvidoso passou pela cabeça da tia da menina, porque ao mesmo tempo era uma “solução” para a sobrinha e consequentemente para ela também. Hesitou um pouco, pois sabia que teria mais uma daquelas discussões sobre moral devido à profissão da tia, mas emendou: Queres trabalhar comigo?
Subiram. O quarto da Dream’s era um luxo só, era um kitsch de um hotel que ela tinha visto em Tenerife, quando foi escalar Bruninha - outra ex-sensação do Dream’s - numa boate daquela cidade. Jennifer e o Senador só conseguiram transar uma vez, mas foi bom, ele disse. Tanto um quanto o outro, sentiram sensações diferentes. Jeniffer enojada com a primeira experiência na prostituição, e principalmente com aquele homem, estava atônita, mas um sem voz de desespero, de angústia, de irresponsabilidade. Já o homem não. Um atônito de ter feito amor com a mulher mais linda daquela casa, e além de linda, inteligente. Era um sem voz de virilidade, um sem voz de dever comprido.
Porra meu anjo, eu queria que minha mulher fosse assim como você, tesão desse jeito. Você sabe o que fez comigo hoje? Me transformou no homem mais realizado do mundo, foi muito bom , muito bom mesmo. Jennifer olhou com desdém para aquele homem, como se afirmasse: só se foi pra você. E o Senador continuou.
- Gostei de você por causa de duas coisas, sabia? Embora uma dessas, você esteja completamente enganada, e você sabe que está... Ah, é? Quais? Uma foi quando você me chamou de responsável e a outra por que você parece muito com uma pessoa que fiquei no passado... É, quem? Uma ex-namorada minha... Sério, por quê? O sorriso, as pernas, os seios e o mesmo jeito imponente de falar... Mas eu não sou tão imponente assim , tenho minhas fraquezas... E linda... Vou te contar uma história, vocês já devem estar acostumadas a isso né? Ouvir histórias de homens casados... Eu não sei por que essa é minha primeira.
E Jennifer deu uma risadinha sem graça no canto da boca e começou a ouvir atenta o político, não pelo fato da história poder a vir ser interessante, e sim por não querer mais se abraçar com aquele velho.
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- Jorge meu irmão, na moral véi, eu não tô mais agüentando essas tuas tabaquices não cara, é sério, tu tás fogo. Como é que tu fala um negócio desses pra boyzinha, tem vergonha nessa cara... Que porra nenhuma meu irmão ela é uma vagaba de merda mesmo, oh pra aí oh, oh o choro dela, parece uma cachorrinha, oh lá chegou os otários... Que otários? Os boys de Casa Forte. Beleza, que bom que eles chegaram, eu tava querendo falar contigo mesmo sobre isso... Lá vem tu de novo com essa frescura com Mariana né véi... Não, Não, esse é meu último pega. Na moral Plínio, tu tá muito cuzão mesmo... Jorge meu irmão, tu tás muito doido, só hoje foram três cavalos brancos, duas ices, e 10 cervas véi, e eu tô a fim de me aquietar, essa para da não dá mais pra mim não, é sério... Era só o que me faltava uma rapariga chorando e um irmão frouxo, tu né homem não é porra, deixa de cocotagem... E não é isso que somos, dois cocotas de merda, filhinhos de papai mesmo.
- Ei, vê só hoje é tanque cheio na certa, só de olhar pra cara de vocês dá nojo e principalmente hoje que eu tô puto, e também é a despedida de Plínio que vai virar freira, vai terminar levando gaia dessa loira.
Plínio correu em disparada para empurrar o irmão sobre a bomba de gasolina, mas foi contido por uma imagem linda, que o fez parar imediatamente. Era Jennifer. A mestiça lhe passou uma tranqüilidade tão grande que o menino pensou ter sentido aquele toque de algum lugar, ou já conhecia aquela beleza nipônica. E com a voz suave de sempre lhe disse:
- Faz isso não menino, de longe dá pra ver que tu és bom, e é tão diferente do teu irmão... Oxe gatinha, depois de tanto xingamento tu ainda ajuda o irmão do cara que falou aquilo tudo contigo... Pois é né, pra você ver. Como é teu nome? Jennifer. Plínio. Mas eu te vi saindo daquela... É sai sim... Tu é... Puta... Eu não quis falar isso... Embora tenha pensado né? A menina sorriu de um jeito que provocou uma chama flamejante no rosto de Micha. Mas relaxa tá tranqüilo. Tô indo nessa, sou uma mulher importante tenho um Senador me esperando...
Depois de ver aquela imagem enigmática sumir entre bombas de gasolina e carros importados o moleque pensou em uma palavra que Jennifer falou: Senador. E se lembrou que era sexta-feira e seu pai gostava muito de passear por Boa viagem depois de voltar de Brasília, e apenas conseguir pensar em uma pessoa com quem Jennifer estava, e sussurrou.
-Painho.
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Ah, tia assim eu não quero não, se for pra trabalhar com isso, tem que ser com muita gente, né assim que vocês conseguem ganhar muito dinheiro? É e não é. Falou cínica a tia. Como assim? Eu vou te guardar pra os melhores. E esfregando os dedos polegar e indicador olhando pra Priscilla. Tu pensa que eu vou te guardar pra maloqueiro e viciado é mulher? Tu é uma joia rara se tu entrar lá. Vê só: lá vai artista, vai cada figurão da sociedade, inclusive políticos. E é pra um que eu vou te guardar hoje. E eles são legais de conversa? São pocha, são sim, relaxa nêga, se tu não gostar tu sai, mas acho que você vai gostar, e a mixaria também é boa logo de cara, tu vai ver. Tu se lembra de Marília né? Aquela galeguinha que morava lá no Alto Santa Terezinha, Hum, Lembro. Pronto. O nome dela agora é Stefanny. Com esse último nome soprado pela tia a menina deu uma gargalhada tão gostosa que quem ouvisse de longe não suspeitaria que a menina estivesse passando por aquela situação, e comentou com a tia.
- Stefanny é foda. Nome de puta mesmo. Tá, tá, tá bom, mas agora tu vai rir ainda mais... Vai tia diz lá. Sabe quem passou na boate no feriado da páscoa? E ainda rindo a menina disse: Stefanny, sei não viu.. Sim mas quem foi que passou lá? Jesus. A feição de Priscilla mudou tão rápido que dona Lúcia assustou-se: O que foi mulher? Oxe tia deixa de heresia, que brincadeira mais chata, gostei não. E gargalhando da surpresa da sobrinha replicou. Oxe menina é sério. Jennifer agora séria. E tu ainda brinca com uma coisa séria dessa... Eu não tô dizendo, tu não acredita não é? Oxe, sabe abstrair as coisas não é? Foi aquele menino de Nova Jerusalém... Sério? , o da Globo? Como é o nome dele mesmo? Porra agora eu não vou me lembrar todo ano é um Jesus diferente... É mesmo. Pelo menos todos são bonitinhos, não é aquele Jesus de sessenta anos que tem lá no Marco Zero. E o riso contagiou as duas por pensarem a mesma coisa no mesmo momento quase que falaram juntas:
- Só faltava essa agora, Jesus em um puteiro.
E quase se mijando de rir as duas entram no Dream’s, e olhando aquele letreiro e ao mesmo tempo para a tia, a menina reflete: - Será que eu vou durar muito aqui?
Aí mulheres! Chegou Jennifer a mais nova contratada da casa. Escancara Dalvinha com um sorriso de orelha a orelha por ter sido a válvula de escape para a solução dos problemas de Priscilla – ou dos dela- ou de Jennifer. Mas antes a menina que já estava se sentindo em casa com todo aquele clima de simpatia mandou:
- Jennifer tia? E as duas juntas: Nome de puta mesmo.
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Foi lá no Alto do Pascoal, eu era muito pobre ainda, minha carreira política ainda estava começando, então, a gente de periferia freqüenta muito pagode, brega, essas coisas, percebe? Todo domingo a gente se encontra se encontrava lá, ela era uma porra louca, me chupava no banheiro, pense? Mas era muito louco, bom demais... E ela tá aonde agora? Oxe tá lá mesmo ainda, fudida, lombrada, só vive cheia das canas, e parece que tem uma filha. Jennifer pareceu se interessar agora pela história, principalmente porque era o bairro de infância dela e talvez ela conhecesse essa “ porra louca” . Em que parte ela mora? Por quê? Você conhece o bairro? Não, não, tenho alguns amigos lá, eles moram no terminal do ônibus, sabe onde é? Hum, hum, sei, perto da ladeira de pedra né? ... Isso é lá mesmo. Mas porque vocês terminaram? Poxa isso é o mais difícil pra te contar... Vá lá conta, pode confiar... A gente suspeitava que ela tava com AIDS, Poxa sério? Sério, e ninguém sabe quem foi que passou para ela. E você não fez o teste não? Não eu não sou dessas coisas não. Pra quê? Pra ficar com medo. Mas foi isso que você teve, medo.
De repente a mestiça lembrou algumas palavras que embaralharam sua cabeça: Alto do Pascoal, ladeira de pedra, AIDS. Daí que ela lembrou-se que a única pessoa que ela conheceu com a doença era um homem velho, que tinha morrido aos 17 anos, e esse assunto foi ficando cada vez mais familiar, e perguntou:
- Como assim AIDS? Ela se encontrava com todo mundo, fazia o que desse na telha com qualquer um, era uma putona, até hoje deve ser assim, e o que me deixava mais aflito era que a comunidade sabia que eu era um dos que transava com ela, o povo todo já estava me chamando de aidético, vereador doente, essas coisas...
Jennifer não sabia mais o que pensar, estava querendo saber mais dessa história, tudo estava se revirando na cabeça dela, era coincidência demais pra ser verdade, estava com medo de fazer a pergunta cabal ao Senador, titubeou um pouco, mas perguntou:
- Como era o nome dessa mulher? Você ficou tantas vezes com ela quem sabe não queira reencontrá-la?
-E eu quero saber daquela aidética menina, mas o nome dela eu sei sim, é Suzana, o nome daquela vaca.
E enquanto o Senador se virava para acender o cigarro Jennifer vestiu um roupão branco, e saiu correndo pelos corredores do Dream’s. Todos ficaram atordoados sem saber o que fazer com aquela cena: uma esfinge japonesa tão desesperada correndo seminua por aquela boate. Dalvinha pensou que fosse “nóia” dela - porque o Senador era acostumado a cheirar umas coisinhas com as meninas do Dream’s – mas não conseguiu evitar que ela saísse pela porta. Aos prantos, ela gritou, mas apenas as pessoas do lado de fora ouviram
- É ele, esse filho da puta é meu pai, como é que esse verme estraga a vida de duas mulheres assim desse jeito, filha de uma puta.
A menina corria, corria desesperada de roupão pelas ruas de Boa viagem, quando se ouviu um estrondo e gritos de horror do lado de fora da Dream’s.
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Jorge olhava fixamente para um dos boyzinhos de Casa forte com uma cara horripilante e com faísca pelas narinas que o rapaz deduziu: essa eu perdi, é tanque cheio. Atrás deles Plínio, com o alívio ser o último racha que faria, mas com a necessidade de ganhar, justamente pela despedida.
E Micha deu a partida. As cantadas tradicionais de pneus rasgaram o silêncio da madruga de Boa viagem, e foram. Jorge com seu Civic, facilmente arrancou dois carros de vantagem para o burguesinho. E em seguida viu-se um vulto em quatro rodas: Plínio, passando pelos dois como um raio prateado. Jorge viu no velocímetro e deduziu que o irmão estava a uns duzentos. Nem sinal do oponente de Plínio. E Jorge gritou ao vento:
- Esse é meu irmão, caralho! Saca só.
Logo adiante a trajetória do Audi mudou bruscamente e um vulto branco foi arremessado longe.
- Plíniooooo. Grita o irmão desesperado com a cena que tinha acabado de ver. Diminui a velocidade e viu no Audi, seu irmão sangrando a cabeça e na frente uns 300 metros, aquela linda japonesinha que ele tinha visto no posto. Nunca se tinha visto Jorge tão sem ação daquele jeito, parecia que a culpa por todos os erros que fez na vida estava se derramando ali, com o sangue do seu irmão. E na calçada, gritos era Dalvinha:
- Filho da puta, tu matou minha sobrinha veado safado. Ai meu Deus uma menina tão nova, e do outro lado ouvia-se uma burburinho dos funcionários da boate, alguns dizendo: Eles não tiveram culpa, foi ela que se jogou no carro, o negócio foi feio. E outros diziam: Irresponsabilidade total, esses burguesinhos daqui não vão ter jeito nunca.
Como eram os filhos do Senador que estavam envolvidos, logo chegaram os repórteres, e os programas de notícia, como é de práxis, exploraram a notícia pelo menos uns dez dias, falando a versão que a menina teria se jogado na frente do carro.


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Por volta das 13h00min do sábado, Suzana acordou e começou o dia como de costume, resmungando:
- Priscilla, Priscilla, traz meu remédio... Porra que ressaca danada, e ainda essa televisão ligada. Ao longe ela ouviu um repórter aos berros, dizendo que o acidente era uma injustiça e misturando o assunto com um anúncio de cuscuz diz – Mais uma tragédia na capital pernambucana... E a mãe de Priscilla vendo aquela cena do acidente dos filhos do Senador falou acidamente:
- Morre mais uma drogada na capital pernambucana... Tá foda são tudo uns irresponsáveis mesmo. Vou dormir de novo.