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terça-feira, 13 de março de 2012

Vou ficar de andada até te encontrar.


 





Meu pai já me dizia:  Quando em nosso vocabulário entra a expressão " no meu tempo era assim... " das duas uma, ou o cidadão está ficando velho ou não reflete sobre o tempo em que vive. Mas vou repetir o clichê paterno e comentar. No meu tempo de adolescente a ânsia de se ter um referente era muito importante. Vivíamos em uma geração "non sense" , sem noção na tradução literal mesmo, desvalorizando ideias, desconstruindo conceitos ( não que isso seja ruim , mas sem nenhum embasamento construtivo fica difícil ) . 

No meu tempo os heróis eram os anti, os de fora, principalmente. Naquela época , minha cidade vivia em artes sombras, rabiscos, metáforas em uma desordem mascarada de revolução, ou rebeldia. No meu tempo de adolescente eu não me ouvia, como ainda não me ouço. Eu não me via no carnaval, meus tambores estavam surdos, os calungas cobertos por uma infinidades de vogais bahianas que ainda ( com menos intensidade claro) circulam pelos ouvidos da geração atual. No meu tempo, os moleques jogavam pedras em passistas e os palhaços do largo do Amparo eram reconhecidos em um piscar de olhos. 

Mas tem um detalhe : No meio dessa "escuridão" existiam olhos acesos, distantes do centro, curiosos é lógico. E nesse zoológico que era meu tempo surgi um caranguejo, com cerébro , pensante. E seu som ecoou pelos quatro cantos de Olinda em meus ouvidos como se fosse um tufão adrenalizante em plena Agamenon Magalhães, destruindo todo alicerce musical já existente no meu  mundo-cabeça. E até hoje não me arrependo te te valorizar, de te divulgar caranguejo malungo, pois se aquele poste não tivesse te levado quem sabe as novinhas de hoje ainda seriam "manguegirls". Seria perfeito voltar a conversar , pelas ladeiras como fazíamos antes, sobre literatura, cinema, artes plásticas e coisa e tal... ao invés de comentar em conversas monossilábicas que o seu short é o mais curto do bairro. 

Esse caranguejo pensante é Francisco de Assis França, Chico Science. Neste 13 de março, logo depois do aniversário das cidades que ela ajudou a reinventar,  completaria 46 anos. Parabéns Chico, e obrigado por o que você fez na minha vida, mesmo sendo curto o período que convivemos neste plano, não esquecerei do efeito causado, e muito menos daquele vinho Carreteiro que tomamos no MAC. 

Enfim, deixo um vídeo para visualização ( e inspiração ) da geração atual, Risoflora, a melhor música de amor de todos os tempos, mesmo sem dizer as frases "Aí se te pego" ou " Eu amo amar você. 

Em lágrimas, termino esse pequeno texto, e avisando e incremetando o clichê do meu pai: Reflito sim sobre meu tempo e afirmo que no meu tempo.... era foda!!! Chico, vou ficar de andada até te achar.

Chila relê tome lindró !!!!!!!!


terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Será que precisa de tudo isso ?

23/01/ 12 , Conde da Boa Vista com a Rua da Aurora.


Galera, primeiramente começo essa postagem pedindo uma coisa bem simples: Não me entendam mal. Não me entendam mal pois uma coisa que  não sou  é a favor da violência, para mim, é a pior das fraquezas humanas.Peço isso porque , dependendo do viés que você leia essa postagem, pode parecer que  estou a favor da polícia ou do governador do Estado, de qualquer movimento estudantil ou de qualquer partido político. Não, eu sou a favor de duas coisas: A favor da reflexão e a favor do povo, que ao final das contas é quem na verdade sofre.  

Essa semana o Recife se tornou um campo de batalha, nas ruas e nos escritórios das empreas de ônibus e do Grande Recife Transportes. Como sempre os estudantes foram as ruas para protestar contra esse aumento , saliento, abusido das passagens de ônibus. Por meio das redes sociais , pelos jornais impressos ou televisionados ficamos sabendo que a polícia agiu com repressão ao movimento, pacífico, dos estudantes causando ferimentos em algumas vítimas, inclusive, pessoas fora do movimento. Acho isso uma idiotice, como já dito acima, a violência é a pior das fraquezas humanas. O erro do governo está em não abrir o diálogo com os estudantes, e a população em geral, e agir com extrema violência com as pessoas e com o patrimônio público, porque digo isso, porque há relatos e fotos de que os prédios públicos da cidade foram atingidos por bombas e por tiros no decorrer das manifestações.  
Mas o que venho refletir aqui é: Será que isso tudo vale a pena? Tanto a violência da polícia quanto a manifestação dos estudantes? Por que pergunto isso, se vale mesmo a pena. A partir de uma foto que vi no facebook cujo protagonista era um estudante de letras da UFPE, instituição na qual faço parte, é que veio essa indagação. A pessoa mencionada estava no meio do protesto com uma placa que dizia: 15 centavos fará muita falta no meu bolso. Será que vai fazer mesmo? O rapaz que cito é um estudante de classe média alta que mora em um bairro nobre da cidade e que , se não me falhe a memória, nunca foi para casa ou à faculdade de ônibus. Girando mais um pouco meu zoom pelas fotos do protesto, encontro três amigos deste mesmo rapaz citado, não com placas, mas com camisas de partidos políticos. Enfim, o que quero comentar aqui é que, não são todos, mas a grande maioria destes "revolucionários" estudantis usam o movimento estudanil, ou a filosofia do movimento, para se autopromover ou autopromover o seu partido político, vez por outra, até não entendem nada do que está acontecendo, e sim são motivados por alguns membros destes partidos para "manifestarem " sua indgnação jogando pedras em ônibus e fazendo trastornos nas ruas. Convido vocês a dar uma volta no campus da UFPE e verão que aqueles 15 centavos daquela placa parecem que não vão fazer falta nenhuma para aquele cara , ou para os amigos dele , pois muitos dos que estavam ali, "protestando" , gastam os 15 ou 30 centavos da "volta" para casa em atividades ilícitas nos arredores da universidade.  

Mas uma pergunta que fica no ar é: Por que só existe protesto na cidade do Recife por passagens de ônibus? Você já viu alguma vez algum estudante protestar  porque as ruas estavam alagadas, ou porque as salas do CAC ( Centro de Artes e Comunicação da UFPE) estava sem ar condicionado ? Ou porque aquele menino do Alto José do Pinho anda roubando as senhorinhas que por lá passam, não né? Tem muita coisa por trás que não conseguimos enxergar ainda. Protestar é bom , mas , as pessoas certas, me parecem ainda não chegaram nos comandos das células inteligentes desses protestos.  

Vamos à luta, sim vamos , mas modificando o modo de protestar , as redes sociais estão aí para isso, eu acho, e sabendo o que protestar, pois não adianta pensar só onde lhe cabe o caso , mas protestar para o bem comum da sociedade, para que possamos viver em uma sociedade bem mais humana e igualitária.




segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Bater, qual a graça?

Vou lhes fazer uma pergunta bem simples... É, muito simples. Para você o que é educar uma criança? Acho que se perguntássemos a 100 pessoas , cem entre cem, responderiam de forma diferente, alguns com respostas parecidas, mas, na essência mesmo da questão ninguém entra em acordo quando se trata deste assunto simplório. Respondo a pergunta do início do texto com uma resposta também simples: Educação é que nem nariz ( para não dizer outra parte do corpo ) cada um tem a sua. E nós pais/educadores temos que ter consciência disso nesses dias pós-modernos. Por que será que é tão difícil controlar essas mentes brilhantes que temos hoje em dia nas escolas e na sociedade em geral? Por que os alunos/filhos " colocam os pais/educadores no bolso"? São perguntas que atraem uma resposta , na minha opinião, clara: A sociedade em que vivemos respira um ar de mudança, e quem não se adequar a essa situação ficará fadado ao fracasso e a incompreensão.

Os pais/educadores tem que perceber que essa geração capta as informações bem mais rápido que as gerações anteriores, a forma de diálogo também se distancia da maneira em que a gerações passadas se comunicavam, enfim as manifestações sociais mudaram e consequentemente, a forma de se educar também. Uma escola cujo o método de ensino não esteja vinculado à tecnologia está com seus dias contados, pode ter certeza. Os pais que não assimilarem que a geração dos seus filhos não escutam mais The beatles e nem Rolling stones não vão acompanhar o crescimento dos seus filhos de forma correta.

Agora se a sociedade pede mudança, e que todos nós devemos nos enquadrar nesta nova ordem, uma coisa me chama a atenção: Muitos desses pais antiquadros que ainda não perceberam a contradição que está a sociedade atual, ainda usam uma "arma" contra, ou favor, da "boa educação" que é a famigerada palmadinha, palmadinha esta que pode transformar-se em tapas , ponta-pés e etc.

O argumento principal é de que se batendo na criança corta-se o risco desta tornar-se um marginal, e paralelamente a criança ficaria "mais obediente" . Acho que a forma de se pensar desta maneira é equivocado , pois, cada vez mais a sociedade mostra que a noção da palmada com a de bom cidadão não está interligada. Acho que ao se estender a mão para bater em uma criança está se descarregando nela uma dose excessiva de outros elementos implícitos que não se verá com o choro final da criança, e sim, em outras ocasiões futuras que nem sempre o pai ou avó , ou qualquer outro membro da família perceberá que este fato tem ligação com aquela palmada, simples palmada.

A palmada, na verdade, é uma forma arcaica de educação e supostamente eficaz segundo a geração que passou por ela. É um argumento de quem não tem argumento para se conseguir o que quer, e através das volências, isto mesmo, violências causadas por esse ato tenta-se passar um ar de autoridade para a criado, no bom sentido da palavra.

Para terminar, educar,no sentido real da palavra, quer dizer conhecer, iluminar , passar conhecimentos,para quem acha que batendo nos seus filhos vai passar alguma fonte de iluminação está muito enganado. Nossa sociedade cada vez mais é a sociedade do diálogo, do entendimento , dos argumentos, da velocidade e não do arcaísmo, da prepotencia e arrogância. Fica uma pergunta no ar, será que todos as pessoas que violam o código penal apanharam quando criança? Pesquisa sugeria.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Universiotários: Cuidado o próximo pode ser você.



Desde a semana passada venho acompanhando a invasão dos alunos ao departamento de filosofia e letras da USP ( Universidade de São Paulo ) . A principal alegação ao motivo da invasão é que a polícia militar do estado de São Paulo está agindo com veemência nas abordagens no campus da Universidade,dessa feita, constragendo os alunos que, segundo eles não fazem nada de errado para que essas abordagens aconteçam.

Outra alegação também é a de que o reitor tem feito restrições a esses alunos e o clima na Universidade não estavam muito legal. Enfim, o departamento foi invadido, dezenas de " estudantes" tomaram conta das instalações do local. Beleza, tudo muito bom , tudo muito bem, mas verdadeiramente os motivos da invasão não é esse, na real seria a "proibição" de se fumar maconha no campus. Opa, menininhos de prédio, o uso da canabis sativa é proibido em todo território nacional, milhares de pessoas são presas diariamente em todo o país por causa disso. Então quer dizer que só por que você leu Kant, Aristóteles, Paltão e etc, ( verdadeiros revolucionários ) você tem o diretito de se sentir esquivado da lei... Nos poupem.

Essa invasão é ridícula, não preciso nem me extender muito nisso, mas o que eu queria chamar atencão era para duas situações: 1º) Isso não é fruto de mera revolta de alunos babacas de uma Universidade isolada. 2º) Queria comentar a declaração de um estudante cujas palavras passaram hoje no Jornal Nacional.

O primeiro comentário é que essa invasão, para mim , não é um caso isolado, como assim escritor? Explico. O que aconteceu em São Paulo, esta semana, vem acontecendo diariamente nas escolas em todo o Brasil: A perda da representação social. O que é isso? As pessoas, mais especificamente falando do alunado, não está entendo o paael social que o aluno representa. Na maioria das escolas não existe mais hierarquia, os discentes não entendem que mesmo com a 'igualdade' que a suposta democracia brasileira prega existe uma finalidade em se ter essa hierarquia: A de sempre se passar um conhecimento.

Além disso, o papel do professor está minimizado , pelo menos para os alunos, diante de tanta ' informação" que as novas tecnologias nos passma na atualidade.

Isso é bom? Pode ser. Porém,tem um detalhe importantíssimo que eles não percebem: é que quem vai fazer filtrar essa quantidade de informações da internet é o professor, está aí mais uma utilidade para nós nesses tempos pós- modernnos, se é que isso existe.

E para terminar essa postagem queria comentar, e fechar com chave de ouro o papelão dos universiotários da USP, a declaração de um estudante. A repórter perguntou: Por que vocês não vão para a delegacia ( nesse momento os "alunos" já estavam na frente da delegacia prestando depoimento) " Ah não, aqui a gente pode fumar nosso cigarrinho... É cada uma.

domingo, 6 de novembro de 2011

Não falei...


Lá vem mais uma Fliporto...Para quem não conhece ( se é que alguém não conhece ) é a festa literária de porto de galinhas, é isso? Acho que é. Bem, para resumir já é o sétimo ano dessa festa que, mais uma vez, será realizada em Olinda, na praça do Carmo , no período de 11 a 15 de Novembro. As festas literárias em Pernambuco são engraçadas... Porque falo isso? A impressão que tenho é que se todos gostassem ( realmente ) de Literatura ali o mundo com certeza estaria salvo. Esse comentário também se estende a Bienal do livro. Na verdade, acho que tanto uma quanto outra são "mercadões" para tentar vender livros , lançá-los e/ou uma oportunidade para escritores de renome falar sempre do mais do mesmo. Lanço aqui uma pergunta, quem assiste a uma palestra, tanto na Fliporto quanto na Bienal saiu de lá entendendo um pouco de Literatura? Pode ser.

Acho que essa dificuldade de sair de um ambiente literário sem entender de Literatura é devido a falta de discussão literária nesses lugares, a conversa hoje gira em torno dos autores e não de livros, de mercado e não de técnicas de escrita do livro lançado em questão. Sabe-se mais da vida íntima do escritor do que da personagem, não que seja desinteressante falar do autor , mas no mundo em que vivemos, cuja imagem visual está reinando perante a "imagem imaginária" não (tentar) desvendar os mistérios de um livro para uma população- ainda - leiga , tanto literariamente quanto em criticidade me parece uma heresia.

Enfim, não me ache descrente ou contra a atividade literária organizada, nada disso , porém acho que ao invés de mercadão essas feiras deveriam ser incentivos à leitura. Quem sabe se houvesse essa mudança de foco a Literatura não poderia ser realmente uma arte de um povo, e não de um grupo restrito como é hoje.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

FICÇÃO E REALIDADE EM “O LIVRO DO DESASSOSSEGO” DE BERNARDO SOARES

Em determinados setores da vida social existem “problemas” que por falta de vontade crítica ou por clara indiferença não são resolvidos. Muitas vezes, com esses problemas sem solução acontecem situações que uma pessoa com o mínimo de sensibilidade e criticismo não deixaria acontecer. Uma dessas situações é deixar que determinadas “partes” desse problema caia no senso comum, ou até mesmo no ostracismo.
Com a arte também acontece o mesmo, vez por outra, a falta de vontade de pesquisa e, muitas vezes, a dificuldade de entendimento da “mensagem” do artista tornam-se obstáculos à resolução daqueles “problemas”. Mais especificamente falando da arte das palavras, a literatura, essa dificuldade é latente com alguns escritores. Sem sair de nosso “sertão” literário, a dificuldade de estudos avalizados sobre alguns escritores brasileiros é visível: como entender o “sertão” de Guimarães Rosa sem cair no clichê de neologista. Ou analisar o “vasto mundo de Drummond sem se referir ao sentimentalismo em suas poesias. Meu discurso estaria sendo falacioso e um tanto hipócrita se não falasse que existem bons trabalhos sobre esses autores, entretanto, a grande maioria ainda se esquiva de um trabalho crítico e termina, enfim, caindo no senso comum da crítica especializada.
O século XX na Literatura nos trouxe uma forma diferente de ler romances ou poemas, ao invés de simples deleite e fruição pessoal, os escritores adicionaram em seus textos interrogações implícitas (ou explícitas), ou seja, o leitor era indagado a pensar sobre o texto, era parte constituinte do projeto de criação, interagir com o autor/autores dos textos.
Seja ela uma arte engajada politicamente, economicamente ou socialmente, ou apenas literariamente (no sentido formalista da palavra) o século passado foi cheio dessas “interrogações” que os escritores lançaram mão em seus textos. Como era de se esperar muitos desses escritores não foram/são compreendidos na transmissão da sua literatura. Um desses exemplos é o escritor português Fernando Pessoa.
A procura de se encontrar em outra pessoa ou em outra coisa, mesmo que seja ele mesmo, a possibilidade de se fragmentar em “outros” e a possibilidade/necessidade de experimentar todas as sensações possíveis ao mesmo tempo contaminavam o pensamento do escritor português. Tanto que ele criou uma forma de tentar representar ou sentir tudo ao mesmo tempo, os heterônimos, ou seja, personalidades literárias com vida, obra e pensamentos próprios (?). Cada um desses heterônimos são estudados incansavelmente nas academias, mas um especial vai nortear o nosso trabalho , por isso nos chama atenção devido a essas características em especial: a) Ele não é propriamente um heterônimo, e sim, um semi-heterônimo. B) Escreveu um livro que por falta de estrutura, ou dificuldade de identificar essa estrutura, permeia os limites teóricos da ficção e da poesia. O semi-heterônimo é Bernardo Soares e a obra é o Livro do Desassossego.
Muitos críticos afirmam que Bernardo Soares seria um reflexo de Fernando Pessoa, eles comprovam isto pelas “coincidências” existentes nas biografias de Pessoa e de Soares, tais como: freqüentavam os mesmos lugares, cafés, bares, a área da Baixa em Lisboa, moravam em pensões baratas, estavam coincidentemente sós, eram avessos as paixões, e a mais intrigante e parecida característica: A incompreensão do mundo.
Bernardo Soares era um ajudante de guarda-livros de Lisboa que tinha um olhar diferenciado para a sociedade, para ele mesmo e para o mundo. Soares, assim como Pessoa, tinha a necessidade incontrolável de experimentar todas as sensações do mundo. Incluído naqueles “problemas” que a arte não consegue decifrar, Bernardo Soares é meio que um heterônimo, ou semi-heterônimo, esquecido pela crítica, ou por sua dificuldade de compreensão ou pelo fato da obra escrita por ele não ter a estrutura peculiar de um romance ou de novela. Partindo do pressuposto que Pessoa escreveu sua obra com a intenção de ser um projeto literário, Bernardo Soares seria a intersecção entre autor e a sua “família” heteronímica, pois, todas as características desta família, tanto psicológicas quanto literárias são passadas por meio da estética encontrada em “O livro do desassossego”.
Essa intenção de englobar tudo em um só heterônimo é analisada por Nelly Novaes desta forma: “A voz/escrita de Bernardo Soares se manifesta como “sujeito em O livro do desassossego e revela/oculta o possível ser real fernandino”.
Além de tentar interseccionar os heterônimos, achamos que com essa afirmação de Nelly Novaes que a verdadeira intenção de Pessoa era ali analisar em um outro, o próprio espaço interior, descobrir-se uno através dos vários, enfim multiplicar-se.
Também incluída naqueles problemas sem solução da Literatura, a obra de Soares tem características peculiares: 1) O livro não foi publicado em vida pelo autor, por mais que suspeitemos de suas intenções, não afirmaremos se o autor mexeria no livro ou não. 2) Como podemos classificar uma obra de livro com uma estrutura que não se enquadra como tal? 3) Se é um livro que denominação deveríamos dar ao livro do desassossego: ficção ou poesia, pois quando nos debruçamos sobre as centenas de páginas do livro percebemos que essa separação fica comprometida.
Dentre essas características a mais importante para nós será a última. Onde se situa o livro do desassossego de Bernardo Soares: no limite da ficção ou da poesia?
Analisando primeiramente o que de poético se sustenta na obra, podemos observar que a re-semantização de vários temas em peculiar, isto é, simplesmente não se descreve fatos. No texto, Soares dá uma visão polissêmica a determinado assunto, olha com outros olhos, se transfigura, individualmente e literariamente em outros. É como se todos os desassossegos do fossem nossos. Na medida em que sua autobiografia sem fatos está sendo contada, percebemos que os fatos não são vividos, mas sentidos, experimentados.
Além dessa re-semantização, no livro do desassossego ocorrem passagens que, analisando a obra de uma forma fragmentada, podemos enxergar tendências das duas últimas escolas literárias existentes: No plano do conteúdo o Simbolismo, e no plano da forma o Modernismo.
As tendências da poesia modernista aparecem no livro na forma da ruptura com estética vigente do passado, através da utilização dos versos livres, sem rimas na grande maioria, ao invés dos sonetos tradicionais do Simbolismo. E as características simbolistas aparecem na forma de conteúdo com a temática decadentista. O pessimismo também é marcante em alguns trechos e a possibilidade de experimentar todas as sensações é visível.
E quais são as características de ficcionalidade existente em “O livro do desassossego”?
Uma das principais é a existência de cenários, tais como: os arquivos onde trabalhava Soares, os cafés que freqüentava, um cenário descritivo como Lisboa. Da mesma forma que analisamos a parte poética de forma fragmentada, temos que decompor as partes ficcionais. Analisando assim alguns trechos percebemos a característica de cena, com começo, meio e fim, descrições, clímax e desfecho, como por exemplo, o suposto encontro de Soares com Pessoa onde se entrega o livro para o início da escrita. Mas o que chama mais atenção para identificar o livro do desassossego como ficcional são duas coisas: A identificação de personagens e a quase “ instituição” de Bernardo Soares como narrador/protagonista de sua próprias experiências .
Mas a pergunta que fica entreaberta é: Teremos mesmo que classificar O livro do desassossego entre essas duas vertentes da Literatura? Fernando Pessoa foi um autor/autores que se multiplicou em vários, entretanto, sendo ele mesmo. O que fica na verdade é a mística e a complexidade, não só do Livro do desassossego, mas da obra completa desse autor genial.
Existem leituras de Pessoa que enxergamos seu lado pagão, outro lado racional, vez por outra um lado desiludido com a instituição do Ser. Se Pessoa mesmo disse que não se considerava um escritor, e sim, uma Literatura inteira, por que não considerar O livro do desassossego uma Literatura inteira? Pois ali podemos encontrar ficção, poesia, prosa, autobiografia (de um ou de outro) enfim, elementos literários de todas as escolas e de todos os gêneros.
Portanto, concluímos que “O livro” é um dos maiores desafios que a teoria e a crítica literárias têm, em contrapartida, se desvendando o mistério ainda assim o prazer de lê-lo não cessará, pois enquanto haver outro ou outros para nos procuráramos nunca cessará o desassossego.

A confissão de Lúcio: Um entre-lugar no Simbolismo e Modernismo português

1. Uma breve introdução.


Ao analisar a atividade artística de certo período é incontestável que se devam associar as influências extras literárias na composição de determinadas obras. Na literatura do final do séc. XIX essa afirmação fica comprovada. O clima de negatividade, obscurantismo, e de falta de identificação com o mundo e sua estrutura social era pano de fundo para influenciar artistas que estavam descontentes com essa situação. Portanto, esse clima negativo foi uma influência principal para se formar uma nova estética literária, e no final do século XIX surge o Simbolismo, que em alguns países da Europa fica em evidência até as primeiras décadas do século seguinte.
O Simbolismo espalhou suas raízes pelo mundo a partir da França. Jovens intelectuais descontentes com a sociedade em que viviam injetavam sua visão de mundo e sensações subjetivas nos poemas que compunham. Dentre esses estava Charles Baudelaire, para muitos o iniciador da estética simbolista. “Entre suas características principais essa estética apresentava uma linguagem ‘quase” incompreensível, indecifrável, hermética. O escritor queria através das sensações emitirem suas mensagens, a fim de que, o leitor experimente as mesmas impressões que ele tinha do mundo. A musicalidade e a sinestesia também eram características marcantes do Simbolismo.
Como já dito, a partir da França a estética simbolista foi espalhada pelo mundo. Na Europa um dos países que sofreu forte influência dessa escola literária foi Portugal. A literatura portuguesa nos revelou artistas como Antonio Nobre e Camilo Peçanha.
As influências do Simbolismo marcam a trajetória literária de muitos artistas até a primeira metade do século XX. E um desses artistas portugueses é Mário de Sá-Carneiro. No início de sua obra , mais especificamente em sua poesia, Mário é fortemente influenciado pela estética simbolista, apresentando em suas poesias eixos temáticos que eram considerados essencialmente simbolista , tais como: o decadentismo, o hermetismo e a negatividade. Entretanto, esse artista é um dos mais importantes da literatura do século XX porque marca em Portugal um período de transição; ainda carregado de influências simbolistas, Mário de Sá Carneiro dialoga com a nova estética que estava se formando subseqüentemente: o modernismo. Essa transição que ocorre em Mário de Sá-Carneiro fica clara em um livro em específico: “A confissão de Lúcio”.
Publicado em 1914 “A confissão de Lúcio” é uma obra sugestiva para explorar essa transição da estética simbolista para a modernista em Mário de Sá-Carneiro.

2. “A confissão de Mário”

Mário de Sá-Carneiro foi um poeta que circulou nos meios literários de Portugal e de França. Entre essas idas e vindas foi escrito a obra “A confissão de Lúcio”. O artista era conhecido pelo seu modo intimista e introspectivo de ver o mundo. Os poucos amigos que tinha, dentre eles Fernando Pessoa, sabiam dessas características, inclusive contadas em alguns poemas. Mário possuía um grande incômodo com ele mesmo e com o seu “ estar no mundo” , o artista sempre procurava um porquê de se viver, mesmo que esse porquê fosse em outra pessoa ou nele mesmo.
Quem lê a biografia e a obra “a confissão de Lúcio”, às vezes, pode fazer uma comparação: ao invés de confissão de Lúcio poderia ser a confissão de Mário. Isso acontece porque algumas características narradas na obra aconteceram na vida do autor, tais como: a negatividade perante o mundo, a circulação constante nos meios literários de Portugal e França. Mas as características principais vistas na obra, e que permeiam toda a obra de Sá-Carneiro são: a procura constante de se encontrar no outro e a tendência suicida.
Essa procura constante desse eu/outro fica evidente na tríade principal do livro : Ricardo/ Lúcio/ Marta. O narrador, por vezes, nos “confunde” se os três são ou não a mesma pessoa. Essa busca constante de se refletir em outra pessoa também se caracteriza na vida de Mario. O autor, às vezes nas temáticas de seus poemas não sabia distinguir se quem estava falando era o Mário poeta ou o Sá-Carneiro homem.
Outro elo entre vida e obra do autor é a tendência suicida. Ela aparece com grande importância em “A confissão de Lúcio” e nas poesias de Mário, fato essas contadas várias vezes nas cartas a Fernando Pessoa. Assim como Florbela Espanca, que apareceria na história literária portuguesa mais a frente, a obra de Mário de Sá-Carneiro pode ser considerada, não uma obra autobiográfica, como afirmam muitos estudiosos, mas sim, uma obra auto-reveladora, porque fica evidente sua entrega pessoal nas suas letras, e também as três principais inquietações do autor: “ o estar no mundo, a anormalidade e o suicídio.
3. “A confissão de Lúcio”: estrutura .

Esta obra foi considerada por José Régio como a obra-prima de entre as novelas de Sá Carneiro, onde estão, como já dito, três de suas obsessões dominantes: o suicídio, o anormal até a loucura e o amor quase pervertido.

Nesta obra, ao incitar seus personagens na busca de uma transcendência distorcida, Sá-Carneiro cria uma atmosfera de exacerbado lirismo. Capaz de acrescentar um prazeroso sabor ao narrar o inarrável, mesmo no leitor que possui poucas fibras de sensibilidade ele é capaz de produzir um turbilhão interior próximo ao palpitar acelerado do coração quando em êxtase.

A Confissão de Lúcio, publicada pelo poeta em 1914, um ano antes do aparecimento do primeiro número de Orpheu é uma novela que parece apresentar, através da fragmentação, a existência de questões que ficam sem resposta: repetição de silêncios intervalares, espelhamentos intertextuais como forma de dar consistência a essa outra voz, consciente de que tudo aquilo é material com que se constrói a obra de arte, cuja linguagem é plástica e maleável, criadora de um sentido provisório e impossível de fixar.
A Confissão de Lúcio é obra narrada em primeira pessoa e o personagem-narrador procura sempre demonstrar o contrário da característica da obra, isto é, apresentar os (simples) fatos a fim de obter credibilidade do leitor, que é o “júri”. Ao modo próximo dos simbolistas, o narrador vai captando as relações mais íntimas do âmbito da percepção, levando esse conjunto de sensações a rever o conceito de realidade e aproximá-la do fantástico.

A narrativa começa do fim para o início, e já na primeira página o próprio narrador demonstra claramente a desilusão que tomou conta de sua vida depois dos acontecimentos que vai narrar, a ponto dos dez anos que passara na prisão por um crime que não cometera parecerem-lhe "uma coisa sorridente". É bom lembrarmos que há uma certa ironia que passa por toda a narrativa, e tal ironia provém do próprio narrador. É como se, o tempo todo, ele estivesse analisando o passado sob os olhos do presente, a fim de dar um tom de maior veracidade aos fatos narrados, porém, sua tentativa é malograda, uma vez que a ironia empregada assume apenas um tom de riso profilático e é totalmente posta por terra no final, pois notamos que o narrador nada mais é do que a vítima confessa delas próprias.

As várias funções exercidas pelo narrador Lúcio na história - ele é ao mesmo tempo personagem narrador e receptor de outras obras - indicam a ambigüidade, inerente à linguagem, em que o significante desliza constantemente sob o significado, tornando impossível o estabelecimento de qualquer sentido definitivo. E também que o reverso (ou o complemento?) da criação é a destruição: Lúcio destrói no fogo sua peça Brasas, Ricardo mata Marta, sua criatura, o final da obra da americana coincide com a sua morte.

O estilo da narrativa tem por objetivo deixar o leitor em constante dúvida (o relato é real ou imaginário?). Inicialmente, os autores optaram pelo mesmo estilo: uma confissão. Essa confissão alcançou o objetivo na novela de Sá Carneiro.

Ele intensifica o caráter documental de sua obra: a novela é apresentada ora como confissão de fatos consumados ora como um diário íntimo.

Não estou escrevendo uma novela. Apenas desejo fazer uma exposição clara de fatos. E, para a clareza, vou-me lançando em mau caminho - parece-me. Aliás, por muito lúcido que queira ser, a minha confissão resultará - estou certo - a mais incoerente, a mais perturbadora, a menos lúcida.

(...) E são apenas fatos que relatarei. Desses fatos, quem quiser, tire as conclusões. Por mim declaro que nunca o experimentei. Endoideceria, seguramente.
(...)

Não importa que me acreditem, mas só digo a verdade - mesmo quando ela é inverossímil.
Com relação às personagens, dentre as várias existentes, entendemos ser o triângulo amoroso formado por Lúcio, Ricardo e Marta, o cerne fundamental que levará à desilusão do autor/narrador no final da narrativa.

Ricardo - o protagonista dos fatos narrados. Trata-se de um poeta que, antes de ser apresentado a Lúcio, é mencionado por várias personagens. Sua marca principal é a incoerência: seu maior problema é que se sente totalmente estranho à vida normal, ao mesmo tempo em que sente uma irresistível atração por ela.

Lúcio Vaz - narrador-personagem jovem escritor português é a duplicação do eu de Ricardo, ou seja, o seu outro, o grande conflito que marca toda a obra de Sá-Carneiro.

Marta - retratada como uma mulher belíssima, mas todo um mistério a envolve durante toda a parte da narrativa em que aparece. É esposa de Ricardo, porém Lúcio se apaixona por ela. Os dois têm uma relação extraconjugal que, para Lúcio, parece óbvia demais para Ricardo não perceber. Lúcio parece ter certeza de que Ricardo sabe de sua relação, mas acha muitíssimo estranha que este nada faça. Em dado momento, Marta deixa de vir à casa de Lúcio e passa a encontrar-se com Sérgio Warginsky, outro freqüentador da casa de Ricardo, o que deixa Lúcio horrorizado.

Para falar de Marta, é necessário ter em mente esta questão do outro, pois esta é a explicação mais plausível do desenrolar final da narrativa, uma vez que é ela quem acende o estopim das ações que levarão à desilusão em relação à vida do autor/narrador.
Num primeiro momento a história se desenvolve na Paris de 1895. O narrador, Lucio, nos conta do meio artístico e destaca-se nessa narração a figura de Gervásio Vila Nova: escultor, dono de uma conversa envolvente, embora fosse algo “disperso, quebrado, ardido”. Destaca-se ainda, nesse momento, a admiração que vai desenvolver por uma misteriosa americana, mulher rica e linda: “Criatura alta, magra, de um rosto esguio de pele dourada - e uns cabelos fantásticos, de um ruivo incendiado, alucinante.” Por meio dela fica sabendo da chegada de Ricardo Loureiro, poeta cuja obra era muito admirada.

Numa festa promovida por Gervásio, Lúcio é apresentado a Ricardo. Logo da primeira conversa vai se desenvolver uma grande amizade e admiração entre ambos.

A admirada americana ruiva desaparece de cena, Gervásio também encerra aqui sua participação no enredo, uma vez que retorna a Portugal. Enquanto as conversas com os outros tinham um interesse voltado para o intelectual, o conhecimento, as feitas com Ricardo pareciam atingir a alma de Lúcio. Dessa amizade nasce uma relação que pode ser representada como sendo uma projeção de Lúcio sobre o outro, Ricardo. Pressente-se um tom de homossexualidade: “Mas uma criatura do nosso sexo, não a podemos possuir. Logo eu só poderia ser amigo de uma criatura do meu sexo, se essa criatura ou eu mudássemos de sexo.”

Ricardo vai para Lisboa, ficam os amigos separados por um ano, trocam-se cinco cartas durante esse período. Em dezembro de 1897 Ricardo retorna a Paris: “As suas feições haviam-se amenizado, acetinado - feminilizado, eis a verdade.” Lúcio sabia, no entanto, que Ricardo havia se casado. Num jantar Lúcio é apresentado a ela, Marta: “Era uma linda mulher loira, muito loira, alta, escultural (.... Cheguei a ter inveja de meu amigo.”

Os três ficaram amigos inseparáveis. Participavam em reuniões de amigos intelectuais e artistas, e nessas se destacava a figura de Sérgio Warginsky, músico russo, que no entanto, vai criar uma impressão negativa e de quase ódio em Lúcio.

Envolvido com sua produção literária, por vezes, Ricardo deixava Lúcio a sós com Marta. Entre situações às vezes constrangedoras que beiravam o limite da amizade, Lúcio começa a se sentir envolvido pela figura de Marta. Até que, enfim, Marta torna-se amante de Lúcio. Lúcio acaba se apaixonando por Marta, apesar de continuar a amizade com Ricardo. Estranhamente Lúcio atenta para alguns detalhes da fala de Ricardo, como quando o amigo lhe diz que ao se observar ao espelho não mais se via: “Ah! Não calcula o meu espanto... a sensação misteriosa que me varou... Mas quer saber? Na foi uma sensação de pavor, foi uma sensação de orgulho.”

Por outro lado, Marta também parecia a Lúcio como uma mulher irreal: “sim, em verdade, era como se não vivesse quando estava longe de mim.” Nada confirmava sua existência além do perfume penetrante que ficava no leito, precisava não mais provar o amor, mas a existência real dessa misteriosa mulher que tanto se entregava a ele e que traía com intensidade o amigo: “As suas feições escapavam-me como nos fogem as das personagens dos sonhos. E, às vezes, querendo-as recordar por força, as únicas que conseguia suscitar em imagem eram as de Ricardo. Decerto por ser o artista quem vivia mais perto dela.”

Depois de algum tempo, Marta torna-se fugidia, demora-se menos com Lúcio, os encontros tornam mais difíceis. Lúcio começa a desconfiar de Marta e desenvolve um sentimento de ciúme. Nas tardes em que apenas encontra o amigo Ricardo, começa a procurá-la desesperadamente. Uma vez seguindo Marta, descobre que ela fora ao apartamento de Sérgio Warginsky. Por essa época, Lúcio terminara uma peça de teatro e começa a andar pelas ruas, em uma dessas andanças encontra Ricardo, este lhe faz uma estranha afirmação, de que Marta é uma criação de Ricardo: “Compreendemo-nos tanto, que Marta é como se fora a minha própria alma,. Pensamos da mesma maneira; igualmente sentimos. Somos nós dois... (...) E ao possuí-la, eu sentia, tinha nela, a amizade que te deveria dedicar.”

Nesta cena alucinante, Ricardo mata Marta, e então Lúcio descobre que um mistério envolvia essa morte: Marta folheava um livro, em pé, ao fundo da casa. Ricardo dá-lhe um tiro à queima roupa:

“E então foi o Mistério... o fantástico Mistério da minha vida...

4. Características simbolistas.

“A confissão de Lúcio” fica no entre-lugar da literatura portuguesa, pois mistura em sua composição estética características simbolistas e modernistas.
No que diz respeito à estética simbolista alguns eixos temáticos dessa escola aparecem com maior nitidez: o decadentismo, o hermetismo e a procura de identificação com o mundo.
O clima de decadentismo aparece logo nos primeiros parágrafos da obra. O narrador falando de uma cadeia pede ao leitor julgar suas atitudes a respeito dos fatos a serem narrados. Mas a incerteza de que ele ( o narrador ) será absolvido ou culpado pouco importa, pois , o eu interior do narrador nos passa uma negatividade falando desse assunto. Para ele não importa a absolvição porque o re/início de sua “liberdade” não haveria mais função de estar no mundo, todas as suas experiências e sensações já foram contadas e vividas, portanto, a falta de ( para quê) viver seria seu norte daí por diante.
Outro ponto essencialmente simbolista é a narrativa de sensações das personagens. Através dos sentidos o narrador re/cria uma realidade ao leitor captando as relações íntimas através das percepções vividas pelos personagens.
Uma dos personagens, o artista Gervásio Vila-Nova, é a representatividade da falta de identificação que Lúcio tinha com o mundo. Altamente fútil e com visões claramente burguesas Gervásio causa um estranhamento em Lúcio, e comparando com os outros amigos que o cercavam, que tinham a mesma atitude, o narrador percebe que esses “amigos” eram espelho da sociedade: com características fúteis e aparentes.
O hermetismo na obra também é destaque. A estrutura narrativa, às vezes, nos faz pensar que o que está sendo narrado é ilusão ou realidade, imaginária ou concreta. Ao final do livro a mensagem que nos passa é um sentido de “não fim” da obra, sensação essa ao invés de ponto final poderia existir uma reticência.
5. Características Modernistas

É importante apresentar as características modernistas em “A confissão de Lúcio” de duas maneiras, a primeira no que diz respeito à estética e a segunda no plano do conteúdo.
Uma das características do Modernismo foi tentar romper com técnicas e estéticas de períodos literários anteriores, mas também falar de assuntos que até então não eram discutidos. No plano do conteúdo em “A confissão de Lúcio” um tema/tabu que foi discutido é a questão do homossexualismo. O autor nos conta um amor entre dois homens ( embora não concretizado ) Ricardo/ Lúcio. Portugal sempre foi uma sociedade conservadora e esse assunto pode causar estranhamento o aparecer numa obra literária, por isso também que Mário de Sá-Carneiro é considerado um autor que transgrediu o esperado e não silenciou a qualquer assunto.
Mário de Sá-Carneiro circulava também pelas vanguardas artísticas que estavam aparecendo no início do século XX. Dentre essas vanguardas o Futurismo, com Marinetti, foi uma das principais influências. Essa tendência tinha como pano de fundo a velocidade em que as transformações sociais vinham acontecendo, e essa velocidade fica clara na estrutura narrativa. Em “A confissão de Lúcio” a velocidade da narração tenta evitar o excesso de descrição de ambientes e de personagens, fato marcante no Romantismo. As sequencias narrativas são excessivamente rápidas. onde passado, presente e futuro saltam aos nossos olhos num piscar.
Essa quebra de linearidade ( começo , meio e fim ) é uma das características mais marcantes na obra. Para nós (pós-modernos) isso pode parecer uma banalidade, pois , entre outras coisas já experimentamos fluxos de consciência, tendências surrealistas e arte concreta, mas para o leitor da época acostumado a uma sequencia narrativa tradicional, o esforço cognitivo deveria ser bem grande para essas idas e vindas ao passado, presente e futuro como ocorre em “A confissão de Lúcio” de Mário de Sá-Carneiro.
Enfim, a obra, como já dito, dialoga no entre - lugar do simbolismo e do modernismo, problematizando questões até então não discutidas na literatura portuguesa, e mostrando estéticas já contadas ( simbolista ) e recém inauguradas ( modernista ) entretanto, o principal objetivo do autor foi mostrar uma característica marcante daquela época, e que é / será vista até os dias de hoje: a fragmentação do ser humano. Naquele tempo nós não cabíamos mais em si mesmo, teríamos que nos procurar em outro/outros, a fim de encontrar características individuais em outras pessoas , ou seja, tentar encontrar nossa “ espelhização” . Entretanto, Mário de Sá Carneiro nos mostra em “ A confissão de Lúcio’ que o caminho não é tão simples de percorrer.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

O OLHAR EX/ÓTICO DO ESTRANGEIRO SOBRE A LITERATURA E O CINEMA PERNAMBUCANOS NA CONTEMPORANEIDADE.
Os primeiros lampejos de comunicação literária do Brasil com Europa foram dados no início do século XIX com o Romantismo. Autores como José de Alencar, Joaquim Manoel de Macedo, Álvares de Azevedo, entre outros, representaram fielmente os cânones (mesmo o Romantismo na Europa sendo uma escola literária desconstituída de regras) dos escritores europeus. Embora estivéssemos nessa época lutando pela nossa independência política, no ramo cultural essa certa independência só viria a acontecer com “Memórias Póstumas de Brás Cubas” de Machado de Assis. Antes disso, o escritor brasileiro costumava parafrasear as obras européias com um cheiro de palmeira imperial e com o cantar de sábias com sotaque francês. E isso era o que chamava a pouca atenção dos muito poucos ainda leitores de além-mar. O exótico brasileiro é que lhes atraía à leitura de textos brasileiros. Mas não o exótico como entendemos hoje, e sim, como fora do olhar convencional. A cultura européia estava acostumada com um tipo de signos literários que mais ou menos se tornou via de regra na roda de leitores daquele período.Durante muito tempo permanecemos com essa visão de submissão aos olhares europeus. Não muito distante de nós, no século XX, Jorge Amado mostrava tudo (que para ele) tinha de melhor na Bahia, resultado: Esse tipo de Literatura foi consumida até a morte na Europa. E o que mais pode intrigar é que por essa Literatura a nossa identidade cultural ficou marcada pela malandragem, irreverência, e certa ingenuidade no modo de enxergarmos o mundo, aquela mesma ingenuidade do tempo do desembarque das caravelas. Além desse ramo da Literatura brasileira, a crescente indústria cinematográfica também vendia essa imagem de oba-oba da cultura brasileira. A porno-chanchada foi muito marcante nas décadas de 30/40 do século passado, com temas geralmente que exploravam a malandragem do brasileiro contribuindo ainda mais para que o olhar do estrangeiro sobre nossa cultura permanecesse procurando o ex/ótico. Com o período ditatorial (até isso importamos da Europa) o nosso poder de reflexão sobre o mundo e a condição humana ficou restrito aos guetos universitários e aos centros undergrounds culturais mais influentes, isso contribuiu em meados da década de 1980, com a redemocratização, a cultura depois de tanto “silêncio” conseguisse re/inventar a identidade nacional e imprimir uma nova visão aos olhos internacionais. Feito isso, a cultura contemporânea não poderia ter outro pano de fundo se não a crítica. Crítica de costumes, de influências, da repressão, da violência e inclusive, mas não sobretudo, a crítica à submissão, desta feita não só aos olhos externos , mas também aos internos. Isso fica mais evidente com a produção cinematográfica do início dos anos 1990. Filmes como “Cidade de Deus” ‘“Olga” e “Agosto” tentaram re/construir e criticar, porém, sem ser dedos-duros, toda uma geração silenciada na construção dessa identidade cultural. A Literatura também nos mostra essa fase de reconstrução da cultura brasileira. A intenção da grande parte dos escritores contemporâneos ainda é a crítica aos problemas sociais que o Brasil atravessa há séculos, mas também mostrar outra cara ao Brasil, isto é, conceder universalidade a temas aparentemente brasileiros. Entretanto, vez por outra, o tema do eterno colonizado re/aparece em algumas manifestações artísticas. Por outro lado,agora com uma nova roupagem, com uma crítica à submissão às avessas, uma crítica ex/ótica. É incontestável que ainda figuramos no olhar do estrangeiro como um povo voltado à carnavalização, e aí se inclui o sexo, a libertinagem e mais uma vez a ingenuidade (aos olhos deles). Dois autores fizeram essa crítica às avessas sobre um tema que está intimamente ligado a brasileiros e estrangeiros que é a prostituição. Um desses autores é Marcelino Freire na Literatura, e Paulo Caldas no Cinema. Em 2005, Marcelino lança “Contos Negreiros” um livro que descarrega em nossos olhos/ouvidos uma crítica do racismo, da exploração e da pobreza que ainda assola nosso país. Mas existem dois contos no livro que fogem à essa temática da crítica da pobreza e entra numa vertente diferente: a visão do estrangeiro (ainda) tem de nós. No conto “Yamami” um narratário instiga um narrador a contar a respeito das maravilhas que ele encontrou no Brasil, entretanto esse narrador relata que a única maravilha que conseguiu admirar foi o ventre de uma indiazinha que o “guiava” pelas belezas do país. O que fica nítido nesse conto é que a submissão em troca de “favores” percorre toda narrativa, confirmando ainda mais essa eterna condição de colonizados, principalmente em locais mais distantes da urbanização. No mesmo livro Freire discorre sobre dois alemães que vão à “guerra”, mas a guerra não é a tradicional, e sim eles irão “caçar” negrinhas no litoral brasileiro e levá-las à Europa. Fica claro nesses contos de Marcelino Freire que o olhar do europeu filtra o diferente de si, foge do trivial, mesmo que por atitudes ilícitas a busca do prazer se torna uma virtude (deles). Podemos fazer uma comparação intersemiótica com o tema de “Alemães vão à guerra” de Freire com “Deserto feliz” de Paulo Caldas. No filme uma menina de 14 anos se vê perdida numa cidade do interior de Pernambuco, cujo respeito e a moral dos pais estão fazendo com que ela queira esquecer aquele lugar e procurar uma vida mais “digna”, fora dali. Parte então para o Recife, apenas com sonhos e incertezas na bagagem e ao chegar dá de cara com uma realidade que não era a que esperava, via as mesmas cenas que a acompanhava no interior, sexo, malandragem, pessoas sem moral, porém, com uma “vantagem”: ali ela podia ganhar dinheiro com isso. Surge então um “salvador”, um alemão que depois de usá-la a leva para fora do país, ela não se acostuma com outra cultura e se vê perdida, não sabe fazer nada além de vender seu corpo. Tanto no livro como no filme, os autores tentaram passar que, infelizmente, no Brasil ainda existe certo determinismo com relação aos povos mais dependentes, seja economicamente ou culturalmente falando. A possibilidade de sair da situação que a pessoa se encontra parece impossível e a condição de submissão parece imprescindível. E isso pode ser estendido como metáfora na relação do Brasil com outros países, principalmente, no ramo cultural. Enfim, a cultura contemporânea mesmo com a crítica sendo pano de fundo de toda sua forma de expressão, ainda volta a velhos temas relatados no passado, porém a crítica feita nos dias de hoje não tem a cara de chapeuzinho disfarçado de lobo mau, não poupa ninguém, do mais ao menos necessitado, uma parcela de culpa fica a mostra na ponta do iceberg. A atual crítica a forma de os brasileiros enxergarem o mundo é às avessas, tem uma nova roupagem, seja por que meio artístico for, tem olhares voltados para as feridas, mesmo que as machuquem é preciso curá-las.

domingo, 15 de novembro de 2009

O ANTI-HEROÍSMO BRASILEIRO NOS “CONTOS NEGREIROS” DE MARCELINO FREIRE.

É incontestável que por ter como matéria-prima a linguagem, a Literatura pode ser considerada uma arte que engloba todos os ramos científicos, desde a Filosofia às conversas de botequim, da Grécia de Homero à Cidade de Deus de Paulo Lins, os escritores descarregam parágrafos, nos quais, na maioria das vezes se encontram um tipo de reflexão científica. Mas também é senso comum de que, dentre esses ramos científicos, o que mais anda de mãos dadas, porém, olhando para lados opostos com a Literatura é a História.
Uma das premissas que podem confirmar essa nossa afirmação é a de que o escritor, vez por outra, poderá lançar seu olhar crítico paro o passado ou para o futuro, mas sempre condicionado aos seus pés, e também olhos, fincados no presente.
O pensamento histórico tem contribuído para desmistificar, desmascarar e até mesmo transformar alguns elementos estéticos de um texto literário. O que antes era visto como uma forma popular de Literatura, em outra época, poderia ser considerada a mais alta expressão literária, cultuada pelas academias e pela classe dominante de uma sociedade. Dentre esses elementos estéticos que mudaram no decorrer da História está a figura do herói.
O herói surgiu como estética na Literatura, ligada a certo período histórico, primeiramente na Grécia, com Homero. Tanto na Ilíada, quanto na Odisséia, a figura heróica surgiu como efeito moralizante nas obras desse escritor. Porém, “esse efeito de “ensinar” condições morais aos cidadãos da pólis grega não foi por mera “inspiração” poética. A “democracia” grega necessitava guiar seus habitantes a uma visão integradora do social, então era preciso idealizar um ser social perfeito, desprovido de defeitos, e se os tivesse seriam pelo menos aceitáveis socialmente. E a Literatura contribuiu, primeiramente pela modalidade oral, para que esse efeito se concretizasse perfeitamente.
Para os gregos o herói é uma figura estereotipada que engloba em sua personalidade as características necessárias para a resolução de um problema de dimensões épicas. Além disso, os heróis eram vistos como semideuses, e ficariam na hierarquia mitológica grega em uma situação intermediária aos Deuses originais. Daí todo aquele efeito moralizante já mencionado nas obras de Homero.
. Essa ideologia de herói grego ficou arraigado no imaginário e na moralidade popular durante muito tempo. Os feitos heróicos de coragem e de superação inspiraram modelos e exemplos em diversos povos, através de situações de guerra ou de competição construindo, desse modo, novas figuras arquetípicas. Foi o caso de Joana d’Arc na França, que dominada pela Inglaterra se exigia naquela época um fato ou feito extraordinário para retomar um sentimento de liberdade perdido por aquele país.
Com o passar do tempo as condições extraliterárias, como as guerras mundiais, a ascensão do capitalismo e da burguesia, as revoluções,o enfraquecimento do positivismo,entre outras, facilitaram para que os ecritores percebessem que a figura do herói não mais serviria como ideal para a condição humana nas sociedades futuras.
James Joyce, escritor irlandês, pelo menos assumidamente, foi um dos primeiros escritores do século XX que arrancou a flecha do pé do calcanhar de Aquiles e cravou-lhe de vez no coração de Ulysses, apagando assim de vez o esteriótipo idealizado pelos gregos. Então, surge uma figura estética que entra em confronto com aquelas características heróicas gregas.
Com elementos que giram em torno da malandragem, personalidade que cria uma empatia com o leitor, e sempre com a ideia de atingir seus objetivos, seja por que meio for, surge o anti-heroísmo na Literatura. O anti-herói protagoniza atitudes referentes ás do heroi clássico, mas esse tipo não possui vocação heróica e realiza as façanhas por motivos egoístas, de vaidade ou de quaisquer gêneros que não sejam altruístas. Diferente do heroi, o anti-heroi não possui apenas uma característica peculiar. Além dos que buscam sastifazer seus próprios interesses, há também os que sofrem desapontamentos em suas vidas, mas que persistem até alcançar o ato heróico. Outra peculiaridade do anti-heroi também fica marcada por aqueles que não tem o condicionamento físico e/ou intelectual o suficiente para conseguir o ato heróico, mas não percebe tal fato ou se preocupa com isso, caracterizando uma espécie de pretensão absoluta.
As “Femme Fatales” que seduzem suas vítimas para alcançar seus objetivos, os justiceiros que usam a violência para fazer justiça, os mercenários que trabalham apenas por dinheiro são exemplos de anti-heroís e estão espalhados pela Literatura do século XX.
O anti-heroísmo não surgiu apenas para entra em conflito com a estética heróica grega, além de representar um período histórico determinado,as características anti-heróicas, segundo Manuel da Costa Pinto
A partir do século XIX, os ferozes e impetuosos heróis literários encontram nos anti-heróis seus principais opositores. Esses personagens mostram o caráter profundamente imoral ou amoral, nocivo e dogmático do herói. A crescente problematização da realidade humana indica que os heróis são cada vez mais suscetíveis às falhas e derrotas. Nesse ponto, entra o questionamento dos personagens anti-heróis: revelar a virilidade e a imoralidade dos heróis. (Pinto, 2004, p.34)
Com uma reflexão sobre a identidade e até certo ponto da idoneidade da figura heróica, a cultura contemporânea inicia uma modificação semântica da personagem anti-heróica: não servir apenas de oposição ao herói, e sim, mostrar suas fraquezas, e perceber que até figuras estereotipadas como os eles são suscetíveis a falhas, e a partir dessas afirmações deduzir que a intenção heróica está mais próximas de nós do que imaginávamos. Enfim, a personagem anti-heróica veio, na Literatura, nos mostrar que qualquer pessoa seja com a cultura ou identidade que for pode alcançar uma personalidade heróica, ou seja, hoje a Literatura contemporânea torna personagens aparentemente comuns em verdadeiros heróis.
No Brasil, como não deu tempo de construir heróis, essa característica anti-heróica de transformar pessoas comuns em estereótipos de heróis se tornou mais comum a partir da década de 1990. Escritores como Raimundo Carreiro, Paulo Lins, e cineastas como Fernando Meirelles e Lírio Ferreira transformaram nossas “mazelas” sociais em elementos estéticos anti-heróicos. Embora na virada do século esse olhar ainda continue, o que nos chama mais atenção atualmente é o olhar “transverso” que os escritores da contemporaneidade disparam para a sociedade brasileira. No que seria uma crítica social elementar, isto é, a parte oprimida é sempre relatada como sofrida, desfavorecida de bens, negligenciada por uma classe dominante que não se cansa de ter poder, os escritores atuais, descarregam uma crítica social em que o oprimido também é criticado, não da mesma forma que o opressor, e sim, com uma espécie de conformismo pela situação em que se encontra. E o escritor brasileiro está usando essa estética na maioria das produções literárias da contemporaneidade. As personagens contemporâneas são carregadas de um conformismo brasileiro, um anti-heroísmo brasileiro.
Um desses escritores contemporâneos que faz essa “crítica às avessas” à sociedade brasileira é Marcelino Freire. Segundo ele mesmo o livro “Contos Negreiros” é baseado em escritores como Castro Alves e Cruz e Sousa cuja crítica social em relação aos negros é evidente. Em contrapartida, Freire usa a linguagem das ruas como a linguagem swingada de Manuel Bandeira, só que com alguns bytes a mais.
Crítico social sem ser dedo-duro, o escritor pernambucano nos mostra que para ser herói não precisa ser forte, não precisa ser branco, não precisa ser, e sim é preciso ter, não importa o que seja, mas para vencer na vida o homem necessariamente tem que possuir o exótico, não na acepção da palavra hoje, mas na essência dela, ou seja, o que está por fora do olho, o que está por fora do outro, como acontece com o rapaz do conto “Esquece” que queria ter um rolex de ouro e um carro importado mesmo conseguindo isso por atos ilícitos, mas na visão dele, ou deles, atos moralmente aceitáveis por estar tirando de quem têm, portanto, as personagens de “Os contos Negreiros” não são anti-heróis clássicos, mas acima de tudo anti-heróis brasileiros.
Outra característica anti-heróica do livro é que as personagens, mesmo tendo nome, podem ser qualquer um de nós, com fraquezas, vícios, virtudes, amores, etc. Isso fica evidente quando Marcelino nomeia os seus contos de cantos. O campo semântico da palavra pode ser analisado de duas formas: como o livro é uma crítica social ao racismo e a pobreza, o escritor dá vozes aos protestos das personagens, que geralmente, permanecem caladas na superfície da sociedade, e a segunda possibilidade é que canto pode representar qualquer lugar, qualquer pessoa, qualquer canto, indiferente de classe social, aquilo que se canta no conto está diante de nossos olhos, mesmo que por baixo exista um véu de indiferença ou de fingimento.
Mesmo o próprio autor afirmando que é um livro sobre racismo, ele dá a voz para outros anti-heróis brasileiros falarem nos cantos, como os homossexuais, os pobres, e os índios. Uma visão importante e inovadora é que Marcelino analisa o olhar estrangeiro sobre as mulheres do Brasil, como é no caso dos cantos “Alemães vão à guerra”, no caso a guerra são os quadris das negras brasileiras, e no canto “Yamami”, no qual o narrador é um estrangeiro que para outros pontos turísticos do Brasil não tinha olhares de turista, mas para indiazinha que o guiava pela Amazônia com a ajuda do seu ventre, o estrangeiro era só elogio.
Dentre algumas características anti-heróicas brasileiras presentes em “Contos Negreiros” estão o conformismo com a situação em que a personagem se encontra e o embranquecimento do negro. Além de outros contos essas características anti-heróicas estão presentes em especial em três contos: “Totonha”, “Solar dos príncipes” e “Meu negro de estimação”.
Em “Totonha” o conformismo anti-heróico aparece quando a personagem principal, uma senhora sem nenhuma escolaridade, bate de frente com uma professora que insiste em lhe apresentar a importância da educação, e com uma simplicidade conformada rebate o desejo da mulher, que insistia em fazê-la ler e escrever. E com uma dose de Determinismo esse desejo de não querer se livrar da pobreza e da ignorância fica evidente logo no início do conto.
“Capim sabe ler? Escrever? Já viu cachorro letrado, científico? Já viu juízo de valor? Em quê? Não quero aprender, dispenso. Deixa pra gente que é moço. Gente com vontade de doutorar. De falar bonito. De salvar vida de pobre. O pobre só precisa ser pobre. (Freire, 2005.p.79)
Já em “Solar dos Príncipes” e “Meu negro de estimação” o que predomina é o embranquecimento do negro. No primeiro, cineastas da favela próxima ao prédio, munidos de câmeras, microfones e outros equipamentos de filmagem, tentam fazer um documentário sobre a vida da classe média. Entretanto, o que poderia ser fácil, pois o porteiro é um negro, se torna uma confusão devido ao equívoco do porteiro em pensar que os negros cineastas da favela iriam roubar o patrimônio dos brancos.
O que se pode deduzir nesse conto é uma dialética entre “iguais”, mas que por estar num status diferente dos meninos, o porteiro se julga superior aos cineastas. E o racismo se torna às avessas, um preconceito de negro com negro, além de permanecer estereótipos já disseminados na cultura brasileira, tais como: o negro é ladrão, anda armado, favelado é traficante e etc. Como por exemplo: “... Filmando? Ladrão é assim quando quer seqüestrar. Acompanha o dia-dia, costumes, a que horas a vítima sai pra trabalhar... e em outro trecho: “... Viemos gravar um longa-metragem. Metra o quê? Metralhadora, cano longo, granada, os negros armados até os dentes...
“Esse embranquecimento também aparece em “Meu negro de estimação” um homossexual “resgata” um negro da favela e o torna uma pessoa especial , morador de um bairro nobre da cidade de São Paulo.” O conto se traduz também uma espécie de coisificação do ser humano, pois o homem tem o outro como coisa, como objeto.
Enfim, Marcelino Freire em “Contos Negreiros” nos mostra que temos que perder o medo em pensar pelo avesso, diferente do convencional, porém o livro também nos deixa uma mensagem muito clara de que nossa indiferença com nós mesmo ainda continua, e parece que por bastante tempo ainda.

sábado, 19 de setembro de 2009

“Um eterno não –ser” ?

Distraído, passando por entre canais de televisão, cheio de textos universitários no colo, cá estou eu numa sexta-feira à noite. Quase destruindo o “scroll” do controle remoto, eis que alguma coisa me chamou a atenção. Era uma propaganda de um canal de televisão que ninguém assiste, a não ser quando passa naquele canal que tem um número de azar na configuração. A propaganda terminava com uma frase que a principio nada instigaria, mas por fim terminou sendo pano-de-fundo para esse texto, a frase era a seguinte: “Não são as respostas que movem o mundo, e sim, as perguntas.
Eliminada a distração, fui ao meu caldeirão de interrogações e – assim como tem sido ultimamente- puxei logo para “minha sardinha literária” alguns desses moinhos de vento que movem a orbe. Uma dessas perguntas foi: De que se fala a Literatura contemporânea? Pergunta essa vista em um site de grande circulação na “net”. E a segunda, que pode se desconecta em duas, seria: A sociedade merece a arte que tem, ou a arte é que merece esta sociedade?
Steven Connor em seu livro “Cultura Pós-moderna” diz que o principal alvo filosófico da atualidade é a crítica. E continua afirmando que todos nós diante de alguma manifestação artística, esquecemos como foi nossa recepção ante esta arte e na sequência engatilhamos nossas armas, e descarregamos nossas visões estéticas, sociológicas, políticas e até antropológicas, nessa prosa ou poema, ou seja, atualmente a crítica está acima de nossa percepção estética.
Muitos críticos da atualidade descarregam seu arsenal na cultura contemporânea dizendo que é uma arte artificial, sem regras, desvinculado da forma e que na verdade essa arte não tem a expressividade que possuía em outras épocas. Para a crítica a cultura contemporânea é um eterno não–ser . Ora, compartilho da opinião que a arte é reflexo da sociedade que a possui, é incontestável que a história tem provado isto. Peça a Zola para fazer um livro cujo conflito entre Homem e o Divino seja pano-de-fundo, no mínimo, ele soltaria os verdes vermezinhos que ele tinha no laboratório/escritório do Positivismo dessecando teu braço até sua morte. Sugira a Homero que troque seu herói Ulisses pelo anti-quase-herói Macunaíma, e daí analise como ficaria a sociedade grega. Não podemos exigir forma em uma sociedade totalmente disforme como a nossa, na qual, idosos tiram fotos de crianças recém-nascidas seminuas e espalham pela internet, sem nenhum propósito angelical, onde as estruturas familiares estão desconjuntadas/mudadas, nas quais, a mãe é que é a provedora da família (e às vezes os filhos). Como exigir que não sejamos artificiais se hoje em dia o programa mais assistido é um bando de modelos apolíneos passando fome em uma floresta, e que o papo principal dos adolescentes (do Coque ou de Casa Forte) é a nova música de quaisquer Aventureiros do forró. Enfim, as manifestações literárias atuais estão fazendo o que sempre fizeram, refletindo o pensamento da sociedade vigente.
Pronto: A pessoa que lê esses parágrafos pode pensar que este que vos digita acha tudo que está acontecendo por aí pode ser considerado literário? Minha resposta pode ser sim e não. Minha resposta positiva se baseia em dois pensadores importantes, o primeiro Antônio Cândido, que considera os textos do tempo colonial brasileiro não uma literatura propriamente dita, e sim, manifestações literárias. E o segundo é Nietzsche que afirma que o tempo e a história são cíclicos. Penso na teoria do Crítico literário porque atualmente o valor da literatura está muito ligada à performance, ou seja, artistas pulam do 4º andar de um prédio para expressar seu lado poético, fecham cruzamentos de cidades movimentadíssimas para no final falarem “ ...ser ou não ser, eis a questão...” O que pode estar acontecendo hoje pode ser essas manifestações que fala Antônio Cândido e não propriamente literatura. Por isso o filósofo me veio à cabeça. Como nada (pra ele) é linear essas tais manifestações podem estar acontecendo novamente no Brasil atual da mesma forma que acontecera outrora. Entretanto, não só de espetáculo carnavalesco-literário vivemos hoje, existem escritores que ainda preservam a essência da literatura: Não revelar, sugerir, procurar a palavra certa para a imagem sentida. Mas a crítica com seu olhar lobo mal disfarçado de chapeuzinho, não sei se por preguiça ou oportunismo, ainda não soube enxergar e entender essa nova estética.
Com a velocidade da tecnologia da informação, a arte também não ficou de fora desse banquete e a “blogueteratura” está aí. Muita gente que escrevia e encontrava a barreira burocrática editorial pela frente hoje tem a facilidade de ser lido na Rússia, no Rajastão, nos Estados Unidos ou em Ouricuri.
Isso é bom? Não sei, mas a crítica tem que analisar essa atual conjuntura com cuidado, e não fechar os olhos e desprezar o que está sendo escrito hoje, quem sabe se no meio desse desprezo não surge um Manuel Bandeira, um Graciliano, ou até um imortal, mesmo depois de morto, como Machado de Assis, só que com alguns megabytes a mais.
Bem ou mal “isso” é o que estamos escrevendo hoje, mostrando toda nossa deformidade e refletindo (bem ou mal) nossa visão de mundo e pensamento em relação à condição humana. Nós críticos, temos que tirar mais uma vez o véu da tradição e tentar entender a cultura contemporânea. E se ela é um eterno não-ser, só o tempo dirá a resposta, aliás, não são as perguntas que movem o mundo?